Ha alguns, muitos anos atrás,
Estava passando por uma dificuldade financeira,
Muito mais severa das que tinha passado antes,
E nunca mais passei por outra semelhante aquela.
Olhando para todos os lados do ambiente em estado desesperador,
Pois a água e a luz já tinham sido cortadas.
Mais do que justo, né?
Se não houve pagamento, o certo é interromper o fornecimento.
E se estava preocupada antes dos cortes,
Passei a martelar o cérebro e quase que enlouquecida,
Por não saber por onde pegar, para começar a agir,
Do quarto passei a andar pela casa toda.
Tinha guardados comigo, alguns que eram pouquíssimo,
Para comprar o arroz, azeite e se por acaso viesse a sobrar,
Talvez o feijão.
Mas a compra ainda não tinha acontecido porque o gás,
Tinha dado adeus, dias antes.
Como gentinha com "G" maiúsculo, assim feito eu,
Não passa pelos outros com a intenção em ferir e lesar,
Fiquei ali de cabeça fervilhando.
Andando pela casa e mexendo aqui, ali e acolá,
Achei umas dúzias de bolinhas de gude,
Que meu filho usava como diversão com seus amigos.
Estavam dentro de uma gaveta pedindo para serem usadas.
Estavam quase sem uso e por muito tempo guardadas.
Ali com elas nas mãos vibrei de alegria,
Pois estava certa que tinha achado a ponta do fio da meada,
Que havia se perdido.
Guardei-as novamente no local que estavam,
Peguei o dinheiro e fui até a uma loja que vendia,
Materiais para construção e pedi alguns,
Poucos quilos de cimento e voltei esperançosa pra casa.
Ao chegar, passei mão de um balde e uma enxada,
E sai à procura de terra.
Achando, fiz umas quatro viagens,
E depositei-as sobre a lage superior da casa.
Depois de quase tudo depositado,
Fui a um terreno sem construção e com a água já instalada,
E com o consentimento do dono que já havia me permitido dias antes,
E levei a água para começar a minha obra de arte.
E eu estava esperançosa no acerto.
Ali comecei e resolvi o problema que hoje,
Considero ser um verdadeiro milagre.
A minha criação ficou um tanto bizarra.
Pois acabei dando vida a bois sorrindo feito gente.
Cavalos com cara de não sei o quê e de olhos esbugalhados.
Depois de secos e com fome, pintei-os, e saí para vendê-los.
Para ir até ao local de venda, molhei uma toalha com sabonete,
Coloquei um salto alto, numa sacola e uns quatros bichinhos,
Numa caixa de madeira que ganhei de um comerciante,
E passei a caminhar cerca de vinte quilômetros.
Sai de casa, quatro e onze da madrugada, e a pé,
Para que chegasse bem cedo, onde imaginei que seria um local bom,
Para venda.
E cheguei.
Ao chegar, descansei a caixa ao chão e com o pano umedecido dei uma geral,
Passei o pente nos cabelos, subi no salto e com poucas ofertas,
Todos os meus bichinhos, tinham se ido.
Voltei de ônibus e dessa vez, enchi a caixa com o resto,
E fui terminar o que tinha começado.
À tarde, fui ao mercado, comprei o gás e alguns alimentos e mais cimento.
Foi assim que saí do sufoco e com pouco tempo,
Estava com a casa iluminada e a água fazendo festa comigo.
Só parei de fazer porque o meu pulso se abriu,
E não tive como mais como moldar a massa.
Muitos podem até pensar;
Isso é ganhar dinheiro?
Para mim foi.
Foi assim que voltei ao meu estado normal da pobreza,
Sem prejudicar ninguém
MARY PEGO
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