QUE FIM LEVOU SUELI?
Lá no sertão, pelos cafundós afora, houve uma menina que nunca teve paciência de brincar de casinha e de vestir suas bonequinhas, porque sempre estava armada com atiradeiras e vivia a apedrejar pessoas, animais e também alvos fixos para treinar bem a pontaria. Sempre com o bando de meninos, lá estava ela aprontando ou inventando travessuras.
Ainda quando pequena, com mais ou menos nove anos, ao se arrumar para ir à escola, a menina sempre era pega juntando seus armamentos para agredir os outros, caso precisasse se defender; mas nem sempre se saia bem. Os chicotes eram feitos com fios encapados com panos ralos, a areia ela colocava em pacotinhos para que na hora que seu agressor viesse agredi-la com os olhos arregalados, ela pudesse atirar a areia bem dentro dos olhos do inimigo.
Nunca trazia seu material escolar em ordem e as lições para casa nunca tinha tempo de fazer. Ao chegar na escola sempre era flagrada e castigada por não ter feito as lições ou por não estar prestando atenção às aulas. Ao ser vaiada por crianças de sua sala, ela já escolhia a sua próxima vítima.
O desatencioso Roberto´que por ser sempre o mais lerdo e por nunca tentar reagir contra ninguém, era sempre sua vítima e também da sua turminha.Esse menino era filho de um casal muito ambicioso, que procurava conquistar muitas terras, lutando incansavelmente. Queriam cegamente deixar aos filhos a garantia do sustento.
Manoel, pai de Roberto, um dia bem de manhãzinha, reclamou de dores fortes no peito, banhado de suor, gemendo e rolando no assoalho frio da cozinha, não deu tempo, nem mesmo para um remédio caseiro.
Ao falecer, deixou Roberto com apenas dez anos, e por ele ser simples demais, continuava apanhando sem parar. Saia das garras de um e caia nas unhas de outro. Quando o pai era vivo, a distração de Roberto o irritava e ele acabava perdendo a cabeça e o agredia a pauladas. Roberto só não morreu de tanto apanhar, porque sua mãe o defendia como podia; o menino quando se sentia livre, saia às pressas e se amoitava em esconderijos seguros.
Roberto teve pouca sorte. Prestes a fazer quinze anos, estavam todos na roça carpindo, quando uma irmã menorzinha veio às pressas, quase perdendo o fôlego:
_Mano, vai depressa que mamãe pôs fogo em seu corpo e está ardendo em chamas.
Saíram todos às pressas; como a roça ficava muito longe de casa, ao chegarem não tiveram nada para fazer a não ser chorar em volta das cinzas de sua mãe. A tristeza e a solidão tomaram conta do pobre rapaz e este resolveu abafar a tristeza, secando as lágrimas na esperança de conquistar a mocinha que não era brincadeira, pois já tinha sido por várias vezes sua vítima. Roberto andava arrastando as asas para a jovenzinha, adiantada em suas travessuras diabólicas.
ERA DELFINA.
Uma rapariga formosa, loura, de olhos muito azuis, enfiada em seu vestido com muito babado e rendas, um laço nos cabelos e muita animação e safadeza. Sempre que percebia que estava sendo admirada pela ala masculina, trazia as duas mãos sobre os joelhos, deslizando suavemente de baixo pra cima, levando com elas a parte inferior do vestido, deixando à mostra todo o pecado feminino.
Era ela a mais surpreendente conquistadora daquela região. Delfina procurava chamar a atenção de qualquer forma. Quando aproximava uma figura máscula, ela já fazia as suas perguntas banais, e não demorava em fazer esta:
_Você conhece a minha avó?
E o despreparado respondia:
_Por que você me pergunta? Acho que devo conhecê-la?
_Não. Mas se eu te contar um pouco da minha avó, tenho certeza de que você vai encontrar algumas semelhanças entre eu e ela.
E o curioso, por já se encontrar desencaminhado, dizia;
_Então me conta.
Procuravam um lugar à sombra fresca, e lá Delfina começava a dizer em meio a gestos ingênuos, capricho e sedução.
_A minha avó, mãe de meu pai, se chama Mirtina. Sabe, o meu pai não nos deixa aproximar dela, porque ele diz que ela é louca e que devora crianças, mas essa pilhéria que ele nos conta só serve mesmo para os meus irmãos que são pequenos. Antes eu acreditava nessa história e morria de medo de que ela durante à noite viesse me devorar.Imagine só, eu sendo devorada por uma mulher doida. Meu pai conta que minha avó não era assim antes, mas quando ela tinha quarenta ou cinquenta anos de idade, deu nela uma doença forte chamada menopausa, que deixa qualquer um louco varrido. Eu não sei, não...Fico me perguntando se essa doença é transmissível,pois às vezes sinto os sintomas que a minha avó dizia sentir. Um calor forte me sobe pelo corpo, uma vontade de gritar e arrancar as roupas e rolar numa grama saudável e orvalhada para me refrescar. A minha avó depois disso, nunca mais esteve com os seus compromissos em dia, pois saia pela rua a qualquer hora, pulando feito criança, cantarolando aquelas modas cheias de besteiras, que quando alguém ouve,recolhe as crianças para que não ouçam. _E dando uma pausa, suspirava fundo e continuava:_Eu não acho nada demais nisso. Deve ser legal viver do jeito que ela vive. Pelo que contam e pelo que a minha avó faz, isso não é uma doença, mas sim, um prazer.
Delfina, com o seu comportamento, parecia ser muito mais doente que a sua avó.
Seu João, pai dela era aprendiz de feiticeiro e nas horas vagas, para desafogar e sair um pouco da rotina, às sextas-feiras ia até a casa de um velho feiticeiro, conhecido nas redondezas como preto velho e passava a noite inteirinha trabalhando como ajudante; para que seu trabalho tivesse sucesso, fazia pesquisas sobre a vida alheia para saber o que estava acontecendo para adivinhar boa parte do que as pessoas estavam querendo ouvir. Para cada caso um esquema era cuidadosamente montado, assim o povo não desconfiaria de sua incapacidade e não sairia decepcionado com os dois vigaristas.
Tudo o que diziam a seus pacientes havia uma razão por trás.
Um dia, ao voltar de madrugada para casa, teve ele uma enorme surpresa. Dona Joaquina, sua esposa, havia dado à luz e estava prestes a morrer. Seus três filhos, incluindo o recém-chegado, estava em prantos, sem cuidado algum. Delfina, aconselhada pela mãe, teria saído à procura de uma parteira ainda de madrugada e já eram quase dez horas da manhã e não tinha retornado. Seu pai ao saber dizia:
_Quando não quiser morrer, mande que Delfina busque a morte, pois só assim teremos certeza de que viveremos muito mais.
E saindo rapidamente arranjou dona Miroxa, uma velha ex-escrava que entendia muito bem de partos, e deixando a parteira com a esposa, saiu à procura da rebelde. Quando a encontrou teve uma enorme surpresa. Delfina, em pleno sol das onze horas, retorcia-se no chão quente como minhoca, assando com o calor. Seu João passou mão numa vara bem vigorosa e surpreendeu a moça com uma coça. Agarrado aos seus cabelos, conduziu-a uns bons quilômetros chicoteando-a.. Ao chegar em casa, deparou com uma grande melhora de sua mulher, exigiu todo o serviço pronto para a mocinha que num instante tratou de cumprir. A eficiente parteira, ao terminar o serviço, alegou ser muito tarde para retornar à sua casa, então acharia melhor se dormisse ali aquela noite, pois o relógio marcava quase dez horas da noite e o caminho para casa escondia certos perigos. No outro dia bem cedo, dona Miroxa, aconselhando o chefe da casa, disse:
_Olha, eu estou indo embora pra casa, mas isso não quer dizer que sua mulher pode ficar só, sem a companhia de uma mulher experiente, eu não posso ficar mais e então o senhor ache uma pessoa para dar à Joaquina os cuidados necessários.
_Mas veja só _ balbuciava seu João. _Eu, com uma moça em casa, vou sair por aí a preocupar os outros, tirando mulheres de suas casas pra fazer um trabalho que Delfina, como mulher, poderia fazer.
_A sua filha não é mulher o suficiente para prestar o serviço que estou deixando. E portanto o senhor rate de arranjar uma mulher que já pariu pelo menos uma vez na vida para poder assumir esse compromisso com maturidade.
Deltrudes foi muito bem recebida por todos, principalmente por Delfina, que adorava ouvir as histórias dos tempos passados contadas pela avó. Depois do serviço pronto Deltrudes reunia os netos sentados feito rodinha pelo chão e começava a contar sobre os escravos que conviviam com sua família. Na sua lembrança estavam muito vivas as imagens do passado.
E iniciava:
_Há muitos anos atrás, no tempo em que eu era ainda muito criança, meus pais tinham muitos escravos. Eles viviam numa senzala pouco distante da nossa casa, o suficiente para nos manter longe. Todas as noites, como eram muito rigorosas as ordens de meu pai, os escravos, depois de liberados cada um dos seus afazeres, se recolhiam e mantinham silêncio total.
Um dia da semana, escolhido pelo senhor, por ser, quem sabe, um dia onde ninguém se preocuparia com falações e risos, era cedido para que os escravos, seus filhos e mulheres se reunissem e contassem casos juntos em plena luz da lua.
As mulheres escravas que mais se identificavam com a cozinha eram as que menos sofriam, as mais desajeitadas tratavam de animais, faziam sabão e pegavam no cabo da enxada. O serviço de qualquer jeito teria que sair, então muitas escravas passavam o dia com seus filhos dependurados no pescoço pra não dar incômodo a ninguém e pra que ninguém pudesse a vir castigá-los.
Por muito pouco eram chicoteados, se mostrassem pouco rendimento eram humilhados de todas as formas. Viviam constantemente aterrorizados. Viam o pavor brotar em cada ação não desejada pelos feitores. Os dentes de seus filhos, por exemplo, ao nascerem, logo eram extraídos para evitar o consumo de carnes ou alimentos considerados desnecessários na alimentação escrava. Seus filhos eram vendidos como se vendia animais e sequer era aceita a interferência dos pais. Alguns ao nascerem com problemas físicos ou mentais, eram exterminados sem compaixão. As meninas-moças, eram obrigadas a ceder o corpo para a satisfação sexual dos senhores e não tinham liberdade para pedia a custódia do filho que viesse a ter, como todo ser humano tem direito. As crianças que ficassem na fazenda eram trocadas por moedas ou animais, antes que tomassem consciência dos costumes que eram obrigadas a aceitar.
Certa vez, de tanto passarem necessidades, alguns deles, inclusive mulheres, resolveram que ao entardecer, iriam ao depósito de um fazendeiro a mais ou menos umas duas fazendas dali para roubar alimentos. A fome levou-os ao total descontrole, encorajaram-se e saíram. Foram uma, duas vezes, e no final já iam todas as noites. O fazendeiro ao descobrir não se alarmou e armou aos famintos uma grande cilada. Pediu a seus empregados que providenciassem o carimbo que usavam nas marcações de animais e que nele continha as suas iniciais.
Os esfomeados escravos desciam ao armazém usando uma corda e cada vez que um descia, era pego e carimbado no lado esquerdo das nádegas. Quem não quis descer por já estar desconfiado de tamanha traição era pressionado pelos pistoleiros do fazendeiro que em todo tempo estavam amoitados e escondidos perto dos desatentos. Depois de todos terem se entregado, o fazendeiro malvado, arranjou-lhes tudo o que havia ali pra se comer, encheu um saco pra cada um e mandou-os de volta pra casa. Mesmo sabendo do perigo que estava à porta, e sofrendo pelas queimaduras do carimbo, eles estavam satisfeitos e diziam uns para os outros:
_O sinhô de lá parece ser mais bonzinho. O que é que você diz disso?
_Se ele fosse tão bonzinho como a maioria de vocês estão falando, ele não teria nos carimbado. Vocês acham que eles dão ponto sem nó? Eu me deito todas as noites e me levanto de manhã com medo de que o dia chegue pra nós. Vocês podem ter certeza de que um dia o banzé, um dia aparece.
O tempo passava e parecia que tudo havia ficado pra trás. Um dia, logo de manhãzinha, o fazendeiro mal-intencionado chegou com os seus capangas e cada um deles armados até os dentes, trazendo consigo além de cordas para amarrá-lo, uns chicotes muito resistentes . Ao chegarem já foram logo dizendo o que estava ocorrendo.
_Sabe, senhor, temos vários escravos rebeldes aqui na sua fazenda, faz alguns meses que fugiram de lá da minha fazenda e...
_Como é que o senhor ousa me dizer uma barbaridade dessas? Os meus escravos são todos nascidos e criados aqui na minha fazenda e portanto não darei a ninguém permissão alguma pra entrarem na minha propriedade.
_Mas, senhor, já faz mais ou menos us seis meses que, ao amanhecer, não via a maioria dos negros em casa.
_Mas se já faz seis meses por que o senhor não fez a busca rapidamente?
_Fiz, sim senhor, mas só os localizei agora.
E o fazendeiro inconformado balançava a cabeça negativamente, sem parar e muito irônico pra mostrar para o insistente que ele estava totalmente errado, pediu pra que seus capangas reunissem os escravos para serem verificados. Enquanto o serviço estava sendo feito, em conversa o fazendeiro esperto disse:
_Olha, o senhor não se preocupe porque os meus escravos, todos eles são marcados com um carimbo, e nele tem as minhas iniciais. _E como o silêncio era total, ele perguntou:_ Os seus são carimbados?
_Não. E eu estou muito feliz por isso, pois só assim provarei para o senhor que os meus escravos não são os seus procurados.
Não demorou duas horas para o capanga Juriti vir dizer que estavam à disposição, que ao verificar, a senzala foi-se quase toda embora.
Revoltado sem ter como se vingar, pegou a sobra e deu-lhes uma grande surra e uma escrava por estar grávida de sete meses, não aguentando a tortura, morreu após três dias.
Sem serviço braçal e com o ódio correndo em seu sangue, depois de alguns dias de derrota, o louco fazendeiro juntou aos seus capangas e em secreto verificou muito bem onde estavam emanados no trabalho e liquidou a todos, inclusive o fazendeiro ladrão.
Mal Deltrudes acabou de contar a sua história, Delfina, como que num susto, deu um salto e desapareceu com o vento que empoeirava toda a visão.. Corria contra a ventania, gritando e soltando gargalhadas assustadoras, subindo e descendo de obstáculos que lhe proibiam a passagem. A idade da moça não lhe proibia as diabruras. Ao passar daquele modo por pessoas da rua, algumas paravam admiradas, outras simplesmente riam com ironia, mas as crianças e adolescentes na maioria das vezes apedrejavam-na e Delfina respondia, atirando pedras, falando palavrões e descobrindo o corpo na presença de qualquer um.
Certo dia, o pai de Delfina, conversando com parentes e amigos, combinou que, num domingo ensolarado, seria muito bom que se reunissem para contar histórias e tocar sanfona como era do costume do povo dali. No dia os amigos chegaram cada um com as suas mulheres, e Miguel era o sanfoneiro do dia..
Tocando as modinhas da época, Delfina, como não perdia tempo, dançava e rebolava com a intenção de atrair os homens mais novos, mas como todos os que estavam ali estavam eram casados, Delfina só conseguiu arranjar um grande fuzuê, que acabou deixando muitos prejudicados. Seus pais, com o intuito de diminuir o falatório surgido com a festa, achou por bem organizar uma festa que comemoraria o aniversário de Delfina. Daria certo se esbanjassem nos convites e exagerassem na comilança.
Depois de ser muito bem orientada e até mesmo castigada pelos pais, Delfina disse a eles que iriam se surpreender com o seu comportamento. Um dia antes da festa, as arrumações começaram já muito cedo, a matança de porcos, galinhas e até um novilho.
Na noite da festa Delfina ficou pronta e atenta para a recepção dos convidados. Recebia todos sem constrangimentos e dizia:
_Quer beliscar ou tomar alguma coisa? Vá até a cozinha. Se preferir carne, o salão é logo às direitas.
A perigosa maluca estava espantando com seus caprichos e assombroso comportamento. E por ai, os cochichos começaram:
_O que deu nela?
_Não sei. _Dizia Chica.
_Quem é aquela que está recebendo as pessoas na porta? Não estou reconhecendo.
E outros espalhados pela multidão, indagavam:
_Quem afinal expulsou o mal de Delfina?
Na hora do baile, Delfina preferiu ficar sentada, só assistindo. Ora com os braços cruzados, ora com as mãos sobre os joelhos. Não aceitou nenhum convite para dançar e olhava pouco par os lados.
Seus pais, quando terminou a festa, quando todos já tinham ido embora, felicitaram-na, agradeceram e elogiaram seu comportamento, mas a moça, com um olhar arrogante, não disse uma palavra sequer.
Chica, antes de ir ajudar nas arrumações, fez uma aposta com dona Marcolina, sua mãe, que naquela festa iria sair pelo menos um ferido, isso se não fosse morto. E disse:
_Olha, mamãe, se não sair ninguém ferido, eu me caso com o velho Praxedes.
Praxedes era um velho horroroso que andava lhe arrastando as asas. e por ser sujo, doente e mulherengo nem as velhas viúvas o queriam. Chica tinha absoluta certeza de que não iria perder a aposta, mas ao presenciar tanta santidade na moça, irritou-se ao se lembrar do trato que fez, sabendo que o velho nojento teria sobrado pra ela. Dona Marcolina, que não foi à festa, ao saber do comportamento da rapariga, ficou boquiaberta e disse:
_Quem aposta em Delfina, só tem a perder. Quando é que se viu algo assim naquela moça? Cruz-credo!
E se benzendo, entrou para o seu quarto imaginando como seria Delfina quieta sem incomodar.
Comportada a moça deveria ficar ainda mais bonita. Pensava ela.
PARTE DO TEXTO EXTRAÍDO DO ROMANCE DE MINHA AUTORIA.
FICÇÃO
ISBN 85-7372-206-1
MARY PEGO

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