sexta-feira, 9 de junho de 2017

O PREÇO DO PECADO (PARTE 2)

                              QUE FIM LEVOU SUELI?



Delfina foi dormir, ma só se deitou, pois o sono tinha se ido. Nos seus pensamentos, nem ela mesma acreditava no seu comportamento: _como conseguira aquilo afinal? Lembrou-se que, certa vez, sua mãe lhe  contara um fato muito curioso que se passara quando era ainda muito uma menina.
   Um dia ao serem convidados para uma festa que seguiria com um baile a noite, na casa de amigos de seus pais, a mãe da menina preparou-a muito bem para levá-la consigo. Como era o costume da época, no local, enquanto os casais dançavam numa sala, seus bebês ficavam num quarto contíguo, onde eles poderiam dormir e ser alimentados tranquilamente. O baile estava animado, e pelo que contava sua mãe, um homem muito mal encarado irritou-se ao ver a sua mulher dançando com o seu inimigo, puxou uma arma, picando bala para todos os lados. Foi um Deus nos acuda.
   Naquela confusão, com todo o ambiente escuro, as mães foram desesperadas pegar os seus filhos e saíram às pressas, pois as balas passavam cantando por seus ouvidos. Ao chegarem em casa, levaram maior susto, pois não era o filho deixado no berçário da festa. A cor da pele para alguns deu certo, mas a criança era do sexo oposto. Não tinham como destrocar naquela mesma noite, pois o acesso era difícil, e a chuva tempestuosa já caía por várias horas. Ninguém sabia quem eram os verdadeiros pais e as crianças por estranharem o ambiente e as pessoas, com choro lamentoso estava atormentando e tirando a paz dos desesperados pais.
_Ó Deus! Como vou suportar vê-lo gritar, sabendo que o meu filho está perdido nas mãos de sei lá de quem? Se Deus quiser, no que amanhecer, vou ficar livre desse bocudo que não me  dá tréguas. Ah, meu Deus como é que está o meu bebê? Será que estão cuidando direitinho dele?
   Antes que o dia clareasse, lá estava a bagunça da destroca.
   _Hei...Você foi no baile ontem?
   _Sim. Por quê?
   _Este bebê que está com você é de quem?
   _Não sei.
   _Posso vê-lo? Talvez seja o nosso.
  E cada um ao verificar, se decepcionava por não conhecê-lo.
  A angústia e a vontade dos pais era tanta que na busca se desencontravam uns dos outros. E com aquela andança, eram palmas daqui, dali, e só se ouvia.
   _A senhora pode reconhecer esta criança?
   _o senhor sabe de quem e bebê?
  E assim por diante. por casa a mesma pergunta.
   _Eu não sei, mas eu acho que se parece muito com a família do Virgulino.
   O outro apavorado dizia:
   _Mas onde é que mora esse tal Virgulino?
   _Mora a uns três quilômetros daqui. O senhor entra neste carril, vai indo, quando ver uma árvore bem grossa, o senhor entra às esquerdas e não demora muito, vai ver a casa do Virgulino.
   Chegando lá a resposta era:
   _ Não sei. Não conheço.
   Depois de um mês de sufoco, foi que se resolveu o problema. Alguns ficaram doentes e passaram por maus pedaços.
   Delfina lembrou também que um dia, ainda muito pequena, ao estar muito bem arrumada para uma festa de batizado, na qual seus pais seriam os padrinhos. Para não sujar o vestido branco que usava, sentou-se numa cadeira que estava na sala e sua mãe pediu-a que não saísse dali. Delfina, sentadinha como mandara a mãe, viu aparecer à porta uma figura muito estranha, que nunca vira por ali. Era de estatura muito pequena, mas muito esperto e a chamava insistentemente para brincar. E ela o acompanhou não se sabe por quanto tempo..
   A menina só tinha quatro anos de idade e não tinha forças para fazer o que fez. Joaquina, ao voltar das arrumações para buscar a filha, irou-se por não encontrá-la, e começou a procurá-la e a dizer os nomes que sabia. O meio dia de procura não resolveu nada. então arranjaram muitos homens para ajudar na caçada a Delfina. Como a menina era bem pequena, os caçadores só procuravam em lugares onde pudesse cair, mas quando já estava quase anoitecendo, um dos homens assobiou e fez sinal para que não fizessem barulho, pois onde a menina estava era perigoso se assustar e acabar caindo de lá. Ao vê-la, todos ficaram assombrados. Delfina estava a uns bons quilômetros de casa e a árvore onde estava sofrera queimada,  não tinha uma folha sequer e não suportava o peso de alguém com o tamanho dela. O lugar era puro carvão. O curioso é que a menina estava em meio a tantos galhos queimados e não havia mancha alguma em seu vestido. Estava num lugar muito difícil de ser retirada, e enquanto faziam planos para tirá-la de lá, ela conversava com alguém e ria largamente, deixando todos curiosos. Ao ver o tamanho problema, chamaram o padre da capela para benzer, pois essa era a única solução. No local não entrava veículos por ser barranceira e as árvores não tinham sido derrubadas. Nessa hora a mãe entrou em desespero e perguntava para a garota:
   _Minha filha, com que é que você está conversando?
   _Com meu amiguinho, mamãe.
   De tanta benzeção e rezas, Delfina, aparentemente aconselhada por alguém, pediu que todos ali se retirassem, que seu amiguinho queria descê-la e não faria isso na  presença de ninguém. Saíram, e num segundo ouviram o choro da menina pedindo pela mãe. Joaquina correu ao encontro da filha e acabou sujando-a toda de carvão. Abraçou-a, beijou-a e prometeu que nunca mais xingaria em hipótese alguma.
   A festa teria ficado para trás, mas Delfina não tinha um arranhão sequer. O casal ficara mais religioso com o medo e desconfiados do que aconteceu.
   No dia seguinte à festa de seu aniversário, em que se comportara tão bem, Delfina levantou de manhã quebrando tudo que via à sua frente e dizia:
   _Por que não me deixaram participar da minha festa? Onde é que me levaram, que eu não vi nada?
   Seus pais, assustados com a atitude da garota, recordaram alguns acontecimentos da festa para que ela lembrasse. E isso a deixava mais irritada.
   E continuava:
   _Vocês me deram alguma coisa e me prenderam em algum lugar? Por que é que estão mentindo pra mim, heim? _E gritava em voz alta:_É mentira! Mentirosos! Mentira de vocês todos!
   Saiu acusando-os de tê-la feito dormir com remédios, enquanto festejavam. Mentiu de ter acordado dentro de um quarto trancado a chave.
   As autoridades, ao receberem a denúncia, foram investigar o ocorrido. Como na festa havia muitos convidados, seu João achou que seria muito fácil provar a verdade, e disse ao delegado:
   _Olha, essa gente de que já falei para o senhor, estava toda em casa ontem à noite. Pergunte a cada um deles.
   E quando a pergunta era feita, todos respondiam com as mesmas palavras.
   _Não sei. Não reconheci a moça.
   Alguns aumentavam e diziam ainda mais;
   _Estava mudada. Muito diferente.
   Perguntaram à Chica e a resposta foi:
   _Não era a mesma, alguma coisa aconteceu de muito bom, ou de muito ruim.
   E assim por diante.
   Seu João e dona Joaquina, estavam sofrendo os terrores de um dia apenas de bondade da filha. Preferiam eles morrer a ter que passar por aquilo. Delfina insistia que não participara da festa e os visitantes diziam não ser a mesma que estava lá aquele dia. Em quem as autoridades iriam acreditar, em Delfina, ou nos pais dela? O povo que ali compareceu respondeu assim por estar abismado com o bom comportamento da moça, mas tinham certeza de que era mesmo Delfina que estava lá. Mas as autoridades estavam levando o caso a sério. A amnésia da moça estava levando muita gente a depor.
   _O senhor estava na tal festa na casa do senhor João?
   _Sim, senhor.
   _E quem é que estava na porta?
   _Delfina, a filha do proprietário.
   _Tem certeza?
   _Tenho.
   _Por que?
   _Porque se parecia muito com ela.
   _O senhor achou alguma diferença na moça?
   _Nossa senhora, parecia não ser a mesma!
   _Por quê?
   _Olha, estava mais bonita, muito comportada, falando difícil e...estava completamente mudada. Não era a mesma.
   _Mas o senhor acabou de dizer que tem certeza de que era Delfina que estava lá.
   _Mas era. _E pensando um pouco dizia:_Olha, amigo,vou ser sincero. A mocinha nos surpreendeu, não dá para acreditar que era a mesma.
   Dispensado, saiu deixando mais dúvidas no ar.
Seu Rouxinol, o delegado, achou por bem convocar mais uma testemunha, e resolveu que seria um irmão de Delfina. Este, pensou o delegado, iria pôr em pratos limpos toda aquela maracutaia. Gildo era um ano mais novo que Delfina e estava a par de todas as coisas que aconteciam dentro de sua casa e acima de tudo, ao se deparar com o delegado em sua frente, já sabia o que estava querendo. Gildo estava disposto a falar a verdade sobre a irmã e sabia tudo o que iria lhe perguntar. Ao sentar-se, já foi logo interrogado:
   _Como estava a festa na sua casa?
   _Muito boa. Maravilhosa!
   _A festa era em homenagem a quem?
   _Estávamos homenageando Delfina, pelo aniversário dela.
   _Se era aniversário de Delfina, por que ela não estava presente?
   _...Mas ela estava na festa.
   _Ela dançou?
   _Não.
   _Teve baile?
   _Teve, sim senhor.
   _E por que ela não dançou?
   _Não sei. Talvez não quisesse. _E não aguentando, soltou uma gargalhada e ao mesmo tempo, pedindo desculpas pelo seu comportamento, disse: _Olha delegado, parece brincadeira, eu não sei o que é que fizeram com ela, mas ela estava totalmente mudada. Se não fosse ela minha irmã, juro que não iria acreditar. _E balançando a cabeça negativamente, contestou: _Tem razão, não era a mesma que eu conheço.
   O delegado não tinha mais dúvidas que Delfina estava falando a verdade. E ordenou que prendessem os pais.
   Roberto gostava ardentemente da moça, mas os acontecimentos sobre o comportamento dela, faziam com que o rapaz ficasse acuado.
   _Tem muitas moças por aí, mas a danada é a mais bonita. Que sorte tive eu de gostar da moça mais revoltada daqui. _Pensava.
   Enquanto o casal estava engaiolado, dona Deltrudes, a avó, cuidou direitinho dos netos, menos de Delfina, que a toda hora era insolente.
   _Já arrumou o seu quarto, Delfina?
   _Sim, senhora.
   _Então vá lavar as suas roupas.
   A inquieta acabava de ouvi-la e desaparecia deixando o serviço por fazer. Não parou em casa, um segundo apenas, a não ser para se alimentar. Os problemas aumentaram e a avó não suportando mais, foi até ao delegado e conseguiu a soltura do casal.
   Os doze dias que ficaram presos, foram muito difíceis de serem recuperados, pois o serviço acumulara e o que estava para colher, se perdeu tudo. Joaquina, pela rebeldia da filha, sofreu um bocado, pois grávida novamente de dois meses e passando por agressões físicas e psicológicas, emagreceu, ficou pálida e muito fraquinha, passou a desmaiar, duas a três vezes ao dia. Toda a sua gravidez, passou por problemas estomacais e muitas dores de cabeça. E mesmo assim, Delfina não lhe dava tréguas.
Aprontava tudo.
   Um certo dia, Delfina arranjou um namorado, não era daquelas redondezas, mas para os pais da moça, não importava de onde vinha o pretendente. O que lhes importava era que o rapaz fosse o homem certo para ela, e que o amor dele, fosse o bastante para suportá-la.
   Depois que João e Joaquina tiveram a certeza de que era mesmo Delfina a mulher dos sonhos dele, resolveram contar-lhe como era a sua filha. E chamando-o em particular desataram:
   _Olha Sérgio, a minha filha é uma menina muito direita, mas não tem um pingo de juízo. Gostaríamos muito que você entrasse pra nossa família, mas depois de tudo que vamos lhe contar, não sabemos qual será a sua reação.
   E contando em detalhes sobre a vida e o comportamento da garota, o rapaz respondeu:
   _Não se preocupe, eu amo a sua filha e tenho certeza de que o meu amor é capaz de mudar totalmente a vida dela.
   _Tudo bem. Nós só não queríamos vender gato por lebre. _Falou o pai muito aliviado e bastante sem graça.
   O tempo se passava, Delfina mudou, mas não o suficiente. A mudança deu para esfriar a tensão de muitos, principalmente a dos seus pais. A mãe ganhou o bebê sem problemas, e foi bem cuidada pela filha, mas Joaquina, exagerando na alimentação em plena dieta, começou a passar mal. Miroxa, a velha e entendida parteira, resolveu o caso num só tapa. Chamou Delfina em particular e perguntou_lhe:
   _Filha, eu já insisti com a sua mãe, pra que ela me conte o que comeu e não consegui fazer com que me contasse. Você será a salvação de sua mãe. Me conte:
   _O que é que a sua mãe andou comendo, para que esteja neste estado tão deplorável?
   _Não posso contar. Mamãe me fez jurar pra ela que não contaria pra ninguém.
   _Mas se você não me contar sua mãe morrerá, pois não saberei aplicar o remédio. E você será a culpada pela morte dela.
   Está bem. _Refletiu um pouco, _Olha, mamãe esquentou umas duas conchas de carne de porco com farinha de mandioca e como estivesse se despedindo de tudo e de todos, comeu feito uma esganada. Enquanto comia, ao mesmo tempo tomava café quente por cima.
   Miroxa, com um semblante assustador, balançou a cabeça em sinal de agradecimento, se retirou com essa frase:
  _Muito obrigada filha, desta ela escapou.
   Joaquina escapou, mas ficou acamada por seis meses. Com o vai e vem de curandeiros que iam visitá-la, apareceu um que não era conhecido por ali. Entrou no quarto acompanhado por seu João, examinou a doente caprichosamente, e eixando-a onde estava, pediu ao chefe da casa que o acompanhasse, e o disse:

FICÇÃO
ISBN 85-7372-206-1


































                    MARY PEGO

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