QUE FIM LEVOU SUELI?
Seu João, o pai, disse_lhe:
_Olha, filha, eu estou doente e não quero deixá-la ao léu, e casada parece-me que estará mais segura.
_Mas papai, casada ou solteira, o que tiver de passar, passarei. Nada poderá impedir. Mas se o senhor se sente melhor assim, casarei. O senhor acha que nos devemos nos casar quando?
_O mais breve possível.
_Está bem, papai.
A moça estava se mostrando muito feliz com a ideia do pai, e no outro dia, ao comunicar ao noivo seu desejo, foi marcada a data do casamento.
Para as preparações, mais uma vez das boas e a ajuda do noivo foi valiosa. A dedicação fez com que tudo saísse perfeito.
Delfina estava calada, como há muitos meses atrás e a mãe seguidamente perguntava:
_Delfina, você acha que deve se casar com o Zé?
_Claro, mamãe, por que? Você tem alguma coisa pra me dizer?
_Não, mas eu tenho muito medo de acontecer como na outra vez.
_Por quê?
_Você, minha filha, não quis que comprasse um outro vestido e até agora não comentou nada sobre a festa.
_Pra que eu ia querer outro vestido, mamãe? Este é muito lindo e é bordado à mão. Se eu fosse querer outro, ele não chegaria aos pés deste que é maravilhoso. A senhora não acha?
_Acho. Mas na outra vez, você nos chateou muito. É claro que aquilo já passou, mas...
_Que nada! Naquele tempo eu era muito desajuízada, e...
_Não é bem isso, Delfina, você sempre achou lindo brincar com os sentimentos alheios e isso não é bom!
_Olha, mamãe, não se preocupe comigo. Não perca o seu tempo pensando besteiras.
Saindo, foi até o quarto, sentou-se na cama e com uma tesoura cortou o lençol da cama em pedacinhos.
Aquilo que Delfina fazia era uma prova de que um novo vexame aconteceria, e Joaquina muito aflita chamou o seu marido em particular e contou o que viu.
_Por quê? Como é que você descobriu?
_Eu conversei com ela sobre o que aconteceu antes e a reação dela não foi das melhores.
João, mesmo já estando nervoso, tentou se acalmar e foi até ao quarto da filha, como se nada estivesse acontecendo e perguntou:
_Arrumando as suas coisas, filha?
_Ah, papai, é o jeito né?
_Se você quiser falar, ou decidir alguma coisa, faça tudo hoje minha filha, porque amanhã será o dia do seu casamento.
Saindo do quarto, a moça fechou novamente a porta e não mais a abriu. Chamaram para o jantar e ela acusando dores de cabeça, disse que iria dormir. Todos jantaram e os ajudantes ficaram até mais tarde terminando a decoração do bolo. Logo que amanheceu, a mãe da moça ao ir acordá-la, teve uma enorme decepção. A moça não estava e faltava no quarto o lindo vestido, mas por precaução, resolveu esperar um pouco mais. Ao esperar o tempo necessário, desesperou-se e como os convidados já não eram poucos, perguntava para, um por um:
_Delfina sumiu, você não a viu por aí?
_Não.
Delfina não dormiu em casa e mais uma vez aprontou e decepcionou a todos. Outra vez. Tudo de novo.
O pai da moça, logo que soube, subiu num jirau e chamou à atenção dos convidados dizendo que não haveria casamento algum e Joaquina protestando, mesmo sem conseguir acreditar, argumentava:
_Mas, João, talvez a menina esteja por ai...
_A minha filha não se cansa de nos humilhar,mas vocês podem ter certeza de que nunca mais haverá festa de casamento nesta casa, desde que Delfina seja a noiva. _ E já chorando disse mais: _ Chega de passar vergonha. Eu e minha mulher, não merecemos isso. Nunca fizemos nada para merecer o que ela está fazendo pra nós. _ E descendo do jirau, saiu e passou aquele resto do dia fora de casa.
O noivo ficou por muito tempo à espera da irresponsável e depois que os acompanhantes dele se foram, sentou-se na escada da igreja, do lado de fora, chorou e jurou vingança. Pensou em ir direto para a casa dela, mas aconselhado por seus pais, deixou para outro dia.
À tarde, quando Delfina retornou, seu pai ainda não tinha voltado, e a falação da mãe já estava deixando a moça de cabeça quente, achando muita impertinência da mãe. O pai chegou dando de cara com a fujona, passou mão de um chicote que ficava dependurado na parede da sala e deu-lhe uma surra tão grande que Gildo, seu irmão, teve que se intrometer, agredindo o pai e tomando o chicote que estava em seu poder. A mãe, muito magoada com tudo, não mudou de posição. Do jeito que estava sentada, ficou assistindo o castigo da filha. Depois da surra, a moça se recolheu e todos da casa juravam que ao amanhecer o dia, a moça estaria a muitos quilômetros dali, mas se enganaram.
No dia seguinte, a moça toda marcada com listras roxas em diagonais pelo corpo, por ter a pele muito clara, apareceu para arrumar a bagunça que os convidados deixaram. Todos que passavam pelo trajeto que Delfina passou, contaram que pedaços do seu lindo vestido de noiva ficaram espalhados por quilômetros. Mas se Delfina não queria se casar, então por que tudo aquilo? A dúvida começava a remoer a todos.
_Deve de ter algo por trás disso. _pensavam os curiosos.
Delfina deixava transparecer a tristeza depois dos foras que dava nos noivos.
A casa estava calada e triste e só Gildo falava com a irmã.
Após alguns dias de tristeza, seu João resolveu ir até a cidade para iniciar um tratamento, mas mesmo recebendo a notícia de que a doença tinha cura, não gostou do que ouviu. Os médicos queriam segurá-lo. tinha que ficar internado rapidamente. Percebendo que não havia escapatória, disse que ficaria, porém iria para casa avisar à família, pegar as roupas e dizer à amiga Chica que a doença deles tinha cura. A se ver livre dos médicos, foi e não mais voltou. Doente e passando por problemas familiares muito sérios, resolveu que não iria mais se importar com nada que a filha fizesse, e disse:
_Joaquina, tive pensando, e acho que a minha doença se agravou muito e foi por pura preocupação. Tudo que acontecer por aqui, eu não vou enxergar. Vou fingir não ver nada, que se refere a ela.
_Tá certo, meu velho! Não adiantou de nada a nossa preocupação.
Delfina, mal esperou assentar a poeira e começou tudo outra vez, mais de forma mais calma. Saía de manhã e retornava tarde d noite.
Ninguém mais via a moça, ela estrava por uma porta e saía pela outra. E já que ela havia deixado de ser uma preocupação, o casal resolveu sair um pouco. Iriam eles fazer uma viagem bem demorada.
Joa quina, tinha uma irmã que morava em um outro estado e fazia muito tempo que não a via. Bernadina, nem sabia que a mãe Deltrudes já não mais existia, então, era hora de visitara irmã. Avisou aos filhos, deixaram as suas ordens e levaram apenas Gilson, o caçula.
Ao chegar, bateram palmas e apareceu uma senhora.
_Bom dia, é aqui que mora a Bernadina?
_Sim, por quê?
_Eu sou a irmã dela. E você quem é?
_Sou Florísa, filha dela.
_Então a senhora está me dizendo que é a minha tia?
_Sim, estou.
Florísa, muito satisfeita, tomou a benção dos dois e abraçou-os, com muita emoção.
_Poxa, titia, eu pensei que nunca iria conhecê-los. Vocês são muito gratificante conhecê-los. Vocês são muito importante para nós.
Não demorou nada, chegou Bernadina.
_Quem são vocês? Parece-me que estou lhes reconhecendo de algum lugar.
_Joaquina quis se identificar, mas ela barrou-a dizendo:
_Não, não fale ainda. Deixe-me ver se consigo me lembrar.
Bernadina era muito mais velha que joaquina e quando se casou deixou-a com apenas sete anos, e então nunca mais tinha visto a irmã.
E não recordando quem era, Florísa lhe disse:
_É a tia Joaquina, mamãe.
Bernadina não acreditando disse:
_Se é mesmo minha irmã, diga; como é o nome da minha mãe?
_Deltrudes, que já faleceu há um ano e dois meses.
Bernadina, Joaquina e Florísa, desataram a chorar abraçadas e Bernadina em prantos:
_A minha mãezinha que tanto tentei vê-la novamente se foi. Eu não queria que fosse assim, mas o que é que vou fazer? Se pudesse dar a minha vida a ela, faria. _ E dobrando os joelhos lamentou: _Mãe, onde você estiver, não importa onde, te amo e sempre farei o possível pra fazer com que nunca você se decepcione comigo. Tudo o que você passou sem mim, não foi do meu agrado. Chorei por você muitas vezes, perdi o sono por querer a sua felicidade e não consegui concretizar o meu sonho que sempre foi de te defender. Mas jamais me esquecerei de que você foi pra mim a mais pura e linda das mulheres.
Ao ser levantada por Joaquina, que também estava em prantos, tentou esquecer as dores com a presença dos visitantes.
Joaquina ficou quase um mês, na casa da irmã. Falou sobre os filhos e Bernadina lhe perguntou:
_Você já tem netos?
_Não. E nem filhos casados.
_Pois eu tenho.
_Quantos?
_Cinco.
_Cinco netos?
_Sim. Tenho duas filhas casada Mariana tem dois. A Florisbela tem dois e o Francisco tem um. E é muito bom que você esteja aqui com a gente pra festejar o casamento da Florísa.
O dia do casamento de Florísa foi muito alegre e não houve esbanjamento. A moça era muito diferente da prima Delfina. Era comportada, muito reservada. O noivo bastante simpático e extremamente educado.
Na hora da cerimônia, o casal de tios, que tinha consigo o coração machucado por decepções recentes, derramou lágrimas, comovidos pela beleza da realização.Para eles, a coisa mais linda era poder ver a filha vestida de noiva num altar. Então; passaram o tempo todo, durante a cerimonia falando baixinho um ao outro:
_Isso que é filha! Esta merece ser muito feliz na vida. Linda que até se parece com um anjo.
Florísa, não era como Joaquina e João a via. A beleza externa era pouquíssima, mas o interior dela reluzia e fazia dela, uma figura excepcional.
No outro dia bem de manhã, o casal retornou para casa e achou tudo como havia deixado. O serviço da casa e da roça, havia sido muito bem administrado. E sem se alarmar, o casal se perguntava:
_Como é que ela se virou sozinha? Deu conta da casa, da roupa e da comida sem reclamações.
_Como você sabe que não ha reclamações? _ Perguntou João.
_Porque ninguém ainda falou nada. Você acha que os meninos iriam ficar calados, quando perguntei-os, se tudo havia dado certo?
_Tá certo. Na verdade, aparentemente tudo parece estar correndo muito bem. Nada pra se fazer. Mas quando se trata de Delfina, tudo o que é bom dura pouco, então, o negócio é ficar de orelhas em pé.
Não demorou seis meses, a moça veio conversar com a mãe:
_Mamãe, eu quero te falar uma coisa.
_Então me fale, Delfina _ Retrucou a mãe.
_A senhora jura que não conta pro papai?
A mãe pensou um pouco, cruzou os dedos, levantando-se.
_Juro.
_Olha, mamãe, estou grávida. _Choramingou a moça.
_Prossiga. _ Disse a mãe fingindo não se importar.
_Eu não sei quem é o pai do bebê, mas o duro é que estou grávida.
_Mas nem mais ou menos, Delfina?
_Não. Não tenho ideia.
Joaquina, ao terminar a conversa com a filha, entrou em seu quarto, trancou a porta e se desmanchou em choro. depois de ter chorado bastante, disfarçando para não dar na cara,chamou o marido em particular e contou o que estava ocorrendo.
_João, você bem sabe que se eu pudesse, te pouparia de muitas coisas que acontecem por aqui.
_Não esconda nada de mim, Joaquina. _ Pediu João já de olhos arregalados. _ O que é que está acontecendo? É Delfina de novo, não é?
_É, joão. Os problemas novamente
_E o que é dessa vez?
_Delfina está grávida e não sabe quem é o pai.
João, sem responder nada, sentou-se, colocou as duas mãos sobre o rosto e ficou por um bom tempo sem falar. Depois levantou-se e disse:
Fique calma, que eu vou resolver isso daí.
_Diga, João, o que você vai fazer? _ desesperou-se Joaquina, por não saber o que o marido faria.
_Não se preocupe, eu não vou bater nela e nem vou matá-la.
João, foi até a cozinha, comeu um pouco e saiu à procura de Gildo para que o acompanhasse. E quando voltou, trouxe consigo o filho que juntos foram até a cidade. Estavam à procura de Jango.
Jango, era um rapaz muito simples, que morava próximo à cidade. Como se parecia com um bobo, Gildo e o pai acharam que seria perfeito para assumir Delfina e o filho. Jango, como era de seu costume, saiu para tomar uma fresca quando foi barrado pelos dois estúpidos armados. Eles insistiam que ele teria que se casar com Delfina, por ser o pai do filho dela. E mesmo o rapaz explicando que não conhecia a tal, não teve como escapar.. O trambique estava armado. Jurando-o de morte, obrigou-o as juntar as suas roupas, colocou-o à sua frente e o levou até Delfina.
Ao chegar, João deixou Gildo, Josino e Getunilo cuidando para que o rapaz não fugisse, foi até a cozinha e orientou a moça:
_Olha aqui, você me decepcionou muito e eu trouxe um rapaz que vai ser o pai do seu filho. vai lá e faça de conta que o conhece. Jura que é ele o pai dessa criança, porque já me cansei de passar vergonha com você. O nome dele é Jango. Finja que o conhece há muito tempo.
Na sala, desinibida como sempre, a moça despejou um monte de elogios ao rapaz.:
_Oi amor, quanta saudades! Uma hora é muito tempo sem você. Eu sabia que você não iria me deixar nesse estado.
_Estado de quê, rameira? Quem é você? _Assustado.
_Ah, não vai me dizer que já me esqueceu? Eu mal posso acreditar que você está aqui. _ E ajoelhando aos seus pés. _ Amor, vamos ter um filho.
Jango muito pressionado, resolveu ficar para garantir a sua vida um pouco mais. Enquanto Delfina falava as bobagens dela, o rapaz desesperado pensava:
_Eu sei sei que não sou o pai dessa criança e ela também sabe. Tenho certeza que não é possível um homem engravidar uma mulher a essa distancia. Nunca vim até aqui e ela nunca passou por lá. Sou um macho e tanto, mas não tão bom assim. Ela pode ser muito esperta, mas não mais inteligente que eu. Pode apostar, quem joga comigo só tem a perder.
Jango sabia que a moça estava mentindo e tinha certeza de que ela mentira para a sua família também. Pensava ele, que o velho João teria sido pela filha, e falava sozinho:
Velho besta. Pobre ignorante. Está ai feito tolo, defendendo a filha com unhas e dentes. E se eu vacilo nas mãos desses otários, eles me tiram a vida por irresponsabilidades dessa safada.
O casamento foi consumado em quinze dias. Os únicos presentes à cerimônia, foram da família da moça.
O pai de Delfina, arranjou uma casinha muito singela, lá no cantinho do sítio e providenciou uma tralha para o uso do casal. Todos os dias bem à tardinha a moça ia à casa dos pais com Jango, e procurava sempre mostrar que estava se sentindo muito bem e feliz. O sogro, quando o casal chegava, ia logo perguntando:
_Como estão vivendo?
E Delfina, para a alegria de todos, respondia antes que Jango falasse:
_Melhor não precisa.
Mas como o preço do pecado ali, ia custar muito caro.
Num dia de sol, seu João estava sentado muito à vontade. Fumando e contando os seus casos, quando foi surpreendido por dois homens que o procuravam para levá-lo de volta ao hospital de onde havia fugido há muitos meses atrás. Não querendo ir, saiu correndo desesperadamente na esperança de se livrar, mas não correu por muito tempo e logo foi pego e colocado em poder dos outros que o esperavam. No bando que foi, estava Chica, sua amiga que se mostrava triste, mas não derrotada como ele. Na viagem que fariam, ninguém poderia livrar-se dos guardas que os acompanhavam. João sabia que iriam passar por um rio que cortava a cidade, e quando faltava pouco para chegar nesse rio, ele insistiu que parassem, pois não estava se sentido bem. E ao descer, saiu correndo e pinchou-se nas águas turbulentas que o levaram como uma folha seca.
Joaquina, chorou muito a morte do marido e lamentou por não terem encontrado o corpo.
Quando Delfina estava no oitavo mês de gestação, Jango comunicou-lhe que se mudariam dali.
_Como mudar? Você não me disse nada que iria arrumar um outro lugar.
_Vamos morar na cidade.
_Aqui na cidade?
_Não nesta. Numa outra muito mais longe, grande e bonita.
_Mas, Jango, nós não sabemos morar na cidade.
_Aprende, Delfina. Todos nós temos que aprender alguma coisa na vida. Eu não aprendi a gostar de você?
Delfina no fundo estava gostando. Achava que morar na cidade seria uma nova aventura e adorou a novidade. Juntando tudo o que podiam levar, e vendendo o restante, se despediram dos familiares e foram.
A moça se deu muito bem na cidade. Começou a trabalhar fazendo limpeza em casa de família para ajudar no sustento da casa. E fez tudo o que pode, com a intenção de mostrar ao marido o seu lado bom. Entrou numa escola para aprender a costurar e iniciou um curso de culinária. Mas tudo em vão. Não mais que entrar e sair. Jango não deu chance pra que a moça aprendesse nada. Não queria que a evoluísse, somente queria queque prestasse o serviço e ganhasse alguns a mais. E ela aceitou tudo muito satisfeita. Eufórica dizia:
_Você já pensou? Se nós estivéssemos no mesmo lugar onde morávamos, meu bebê não ia ter o enxoval que tem. Lá, eu não ia poder trabalhar, e sem trabalho ninguém que fosse rico, iria me conhecer e me dar tanta roupa.
_É mesmo! _ respondia Jango muito friamente.
E Delfina, com a alegria de sobra, pegava-o pelas mãos e saía arrastando-o, até o quarto e desdobravam as roupinhas
balançando-as, fazia como que estivesse dançando e falava-o:
_Olha que lindo! Quem você acha que vai usar? Menino, ou menina, heim?
_Ah, Delfina, quando nascer a gente vê isso. _Respondia impaciente. _Vai, guarda isso aí, quando chegar a hora, você vai ver quem vai usar.
Ela, muito desajeitada, dobrava tudo e guardava-as, numa caixa de papelão.
Jango mostrava-se muito insatisfeito com tudo em casa. No trabalho, tudo estava bem. Ganhava pouco e o trabalho era tão carrasco que deixava-lhe marcas pelo corpo. Era tratado como um verdadeiro escravo por ser muito humilde e com cara de abobalhado. Os companheiros de serviço, faziam gracinhas e piadas com a sua cara, como comer a comida dele e colocar pedras dentro da marmita, esconder, ou roubar suas roupas limpas, encher demais o carrinho de concreto, e assim por diante. Mas Jango não levava em conta o que faziam. Entrava na brincadeira com normalidade. Chegava em casa, calava-se e ficava no seu canto. A mulher, temendo ser rejeitada, de vez em quando perguntava-o:
_Você está doente?
_Não, por quê?
_Anda tão queto e não sorri por nada.
_Qual o motivo que tenho pra sorrir?
_Tudo. Tudo está indo tão bem, não acha?
_É mesmo! _respondia encolhendo os ombros e franzindo a boca.
Quando Delfina começou a sentir as dores do parto, Jango cuidou de tudo. Buscou a parteira e o parto correu muito bem
_Delfina deu à luz a uma menina. _ avisou a parteira abrindo a porta do quarto.
E para não deixar o ambiente sem brilho, Jango levantou-se da cadeira e respondeu:
_Nossa senhora, que bom! É ,mocinha?
_Sim, senhor. Respondeu a parteira. E como vai ser o nome da criança, senhor?
Ah, a mulher é quem sabe. A verdade é, que ainda não pensei nisso.
Delfina lá do quarto gritou:
_Eu pensei em pôr o nome dela de Sueli.
_Bonito nome. Muito lindo. Afirmou.
Para Delfina, o nome Sueli foi aprovado por Jango, mas na verdade ele não estava se importando com nada.
Sueli era um bebê lindo e saudável. Estava pedindo muito amor e carinho, mas Delfina, após o nascimento da criança, adquiriu problemas de saúde. Todos os meses, na época de menstruar, ficava louca e não mantinha a higiene do seu corpo e não cuidava de Sueli. Tudo o que Jango queria era não estar por perto de tudo aquilo, mas fazia de tudo para que ela cresse que tinha esquecido o passado.
Um dia Jango chegou do trabalho e falou:
_Delfina, me dispensaram do serviço e eu acho que seria muito bom a gente dar um passeio.
_Mas Jango, passear onde? Não conhecemos ninguém por aqui.
A sua mãe não conhece a neta ainda e Sueli já está com cinco meses. Que tal se fizéssemos uma surpresa a ela?
_Muito obrigada! Que legal, Jango. Pensei que nunca mais veria mamãe.
_Mais vai ver muitas outras vezes. respondeu o traiçoeiro.
Arrumaram as coisas e no outro dia de manhã saíram. Delfina estava que não se aguentava de felicidade. Entraram no trem e foram conversando normalmente, dividindo o lanche e tudo mais. Numa cidade próxima à da mãe de Delfina, o trem fez uma parada. Jango desceu para comprar lanche, água e uma chupeta. Comprou, voltou, sentou-se, e quando o trem já estava partindo, já mal intencionado falou com ares de pressa:
_Fique aqui que eu vou correndinho comprar um cigarro.
_...Mas não vai dar mais tempo.
Eu vou rapidinho, Delfina.
O trem partiu levando Delfina e Sueli. Como o rapaz conhecia tudo por ali, a moça ficou preocupada, mas não muito. Pensou:
_Com o dinheiro no bolso, ele pega o próximo trem e prossegue a viagem. Eu só não fiquei contente, porque seria legal a gente chegar juntos na casa da mamãe.
Chegou na da mãe e a primeira pergunta foi:
_Cadê o Jango?
Depois de contar o fato, todos se acalmaram.
Jango voltou pra casa, vendeu tudo e desapareceu. Delfina, esperou dois, três dias, um mês, até desanimar. Joaquina estava novamente com a cruz para carregar.
Sueli não foi bem recebida pela avó, mas Gildo achou a menina uma graça. Andava pra lá e pra cá exibindo a sobrinha como podia.
Depois de tanto esperar, Delfina achou por bem sair um pouco. Ir à bailes, festas e encontros. E como era uma mulher nova e bonita, não ficou mais que um ano sozinha.
Logo que Vivaldo a viu, sentiu que a vida iniciara novamente pra ele. Suspirando profundamente só falava na moça. Passaram a se encontrar mais vezes, e quando o romance deles estava pra pegar fogo e não tendo tempo disponível, resolveu, que se amoça quisesse, iriam morar juntos.
Vivaldo era viúvo que queimava latas, cozinhava, lavava e trabalhava na roça. Os filhos eram todos casados e a sua casa era bastante distante de vizinhos..Ele era totalmente desconhecido na redondeza.
_Você me conhece? Perguntou Delfina.
_Não.
_Como não?
_Por que devo conhecer você? Desconfiou.
_Porque o meu pai era curandeiro aqui.
_Só por isso?
_É. É só por isso.
O novo homem da vida de Delfina não sabia das crises que ela tinha, mas sabia da existência de existência de Sueli, e aceitou-a. A união durou quase cinco anos, mas depois de um ano de convivência, ele passou a agredi-la e não se importar com ela, como no começo.
Saía para o trabalho de manhã levando consigo a alimentação para o dia e deixava as duas presas. Se soubesse que a moça havia falado com alguém enquanto estivesse fora, dava-lhe uma surra. Chegava do serviço examinando tudo. Se havia rastros pelo terreiro, tocos de cigarro, ou se Delfina não estava com outro cheiro. Interrogava Sueli para descobrir alguma coisa que temesse estar escondido. Se chegasse alguém, ou simplesmente batessem palmas quando ele não estava, Delfina respondia lá do fundo:
Vivaldo não está, Volte outra hora.
Ou se Gildo fosse visitá-la, ela pedia para que Sueli não contasse ao padrasto que tinha recebido visitas. Mas de vez em quando a menina deixava escapar e a casa virava num inferno. Mas por nada Delfina brigava com a filha, por ela ter feito algo desagradável. Apenas aconselhava a se calar.
Delfina, certa vez manifestou a vontade de batizar Sueli e Vivaldo muito surpreso riu:
_Não me diga que essa criaturinha , ainda é pagã? Se soubesse disso, não me arriscaria a dormir uma só noite sobre o mesmo telhado que ela.
_Mas por que Vivaldo?
Estou brincando, Delfina. Falou sorrindo. _Vamos batizar a menina.
Delfina chamou Gildo para ser o padrinho da filha, e ele aceitou o convite com muito prazer.
No dia do batizado, só Gildo compareceu. A maior parte dos assados sobraram porque ninguém acreditava que realmente haveria festa de batizado na casa de Delfina.
_Não vai haver batizado nenhum, e se houver achamos que há boas chances da criança fugir da igreja. Ou da festa.
Ou:
Quantas vezes já tentaram batizá-la? Porque pela idade de Sueli, as tentativas não foram poucas.
Nada que Delfina falasse, era levado a sério pelo povo.
A moça passou por momentos cruéis. Constantemente engravidava e perdia o feto. Mesmo que quisesse ter mais um filho, estava sendo impossível, porque de três em três meses, passava por trabalho de parto.
A fraqueza tomou conta do seu corpo que definhou-se a tal ponto que ficou corcunda como uma idosa. As roupas que antes ficavam ajustadas a seu corpo, já ficavam feito camisola. Raramente o marido a convidava para ir a festas, ou bailes, mas quando isso acontecia, ele saía na frente e ela atrás.Mal vestida e com os seus chinelos de dedos emendados. A pobre moça, não fazia mais do que consertar velharias estragadas.
Nos bailes, ela chegava procurando um lugar para se sentar, e o seu marido saía à procura de damas que dançava a noite inteira. Se ele namorava, ou traía a esposa, ela não sabia, pois era traída pelo sono e dormia sentada até o amanhecer. Quando o sanfoneiro começava a tocar a última música, Vivaldo ia até ao canto onde ela estava dormindo, e ao acordá-la, balançando seu corpo frágil, ou dando tapinhas leves em seu rosto, ela despertava do sono atordoada, meio sem saber o que realmente estava acontecendo, agarrava-o pela sua cintura e saía dançando lentamente com a música agitada. Ele, ao se cansar na insistência da alerta, dava-lhe um empurrão, e com a sua profunda fraqueza, levantava-se e saía devagarinho e aos prantos.
Chegava em casa e encontrava Sueli dormindo feito anjo. Com a pressão da bebida e a decepção de ver tudo como estava, ele resolvia pôr tudo abaixo. Xingando, desaforando e relembrando o passado da moça, acabava acordando a criança que não tinha nada a ver com o que estava acontecendo, que em gritos desesperados se refugiava nos braços da mãe.
Um dia, com aquelas desconfianças bobas que tinha, ao chegar do serviço, jurou que alguém se aproximou de sua casa. Ele insistia que sim, e Delfina negando. E ele resolver ir mais fundo na história e na agressão.
Delfina estava com uma panela enorme de água em ponto de ebulição,e quando percebeu que quando o marido falava, mais se aproximava da panela, jogou Sueli pra baixo da cama e só viu a água indo em direção da criança. Sueli não teve queimaduras graves, porque a água fora obrigada a filtrar no colchão, antes de atingi-la. Parecia que Vivaldo queria atingir somente a inocente.
A menina, com a pouca idade que tinha, já tentava agradar o padrasto, apresentando parte do serviço pronto. Lavava as roupas mais leves, como louça e os que não pesavam muito.
O rio onde as roupas eram lavadas, era muito perigoso para que uma menina da idade dela, viesse a enfrentar como um adulto.
Um dia Vivaldo resolveu fazer um passeio à casa de uma filha que morava numa outra região distante dali. Foi deixando as duas, dizendo que ficaria uma semana fora pois faziam anos que não a via. Desejava conhecer os netos que nasceram enquanto ficou distante.
Delfina, como todos os problemas, fora obrigada a ficar sozinha, sem ninguém. Sua mãe e irmãos, com exceção do mais velho, que ia visitá-la uma vez por mês, não iam vê-la por nada. E ao ficar só, parece que o castigo quis lhe fazer uma visita com mais força.
Tarde da noite, ela começou a passar mal, com tremores de frio e o sangue veio à tona. Mas desta vez explodiu para todos os lados. e como Sueli não era acostumada a sair, Delfina acabou morrendo sozinha.
Como faltava muito tempo para que o irmão mais velho fosse visitá-la novamente, ficou o corpo estendido sobre o colchão de palha, coberto com um cobertor puído, à espera dos urubus.
Depois de dois dias, Sueli continuava trancada dentro de casa, com um calor insuportável, e o mau cheiro começou a exalar do corpo da mãe. No quinto dia de manhã, Vivaldo, como era muito ciumento e desconfiado da mulher, chegou quietinho e nas pontas dos pés, abriu a porta e começou a gritar:
_Delfina, que mau cheiro é este? Delfina! Delfina! Delfina...! Mas as chamadas foram em vão. Sueli, de tanto que chorou, dormiu e com aquele barulho, sequer acordou.
Vivaldo, depois de verificar tudo, pegou Sueli, fechou a porta novamente e foi até a casa da mãe de Delfina, para contar-lhes o ocorrido. Ouviram o que ele tinha a dizer, e umas míseras lágrimas rolaram dos olhos de alguns. Só Gildo demonstrou que tinha perdido uma grande pessoa. Vivaldo procurou as autoridades e o caso de Delfina, devia de ter se acabado ali.
Mas com a morte de Delfina, outro problema se iniciava.
Sueli foi deixada com a avó Joaquina e os tios. A avó, por ter sofrido muito com a filha, renegava a neta de todas as formas, e replicava:
_Eu, ficar com esta menina, nem pensar? Deus é que me perdoe, mas prefiro morrer do que ter que carregar essa cruz de novo. Eu pago o preço que Deus me cobrar, mas esse pra mim será muito caro. Eu não vou aguentar se tiver que assumir uma nova Delfina.
Joaquina achava por bem dar a neta para adoção, e insistia tanto na ideia que acabou criando um grande conflito dentro de casa. Gildo não aceitava a ideia de tirar Sueli do seio da família, e falava:
_Como é que a senhora tem essa coragem? Será, mamãe, que a senhora não tem pena de uma criança que conviveu até agora com problemas sérios? A senhora não acha que Sueli já pagou demais pelos nossos erros?
_Nossos, não senhor. _ Levantou-se irada. _Se houver erro, este não foi meu, mas sim, da irresponsável da mãe dela. E eu sofri muito com aquela maldita. Você parou pra pensar, Gildo, que a cura de Delfina estava nos sete palmos? Ela foi aconselhada muitas e muitas vezes, e eu não consegui fazer com que ela me ouvisse. Imagine se Sueli me apronta o mesmo. _ E, saindo, foi cuidar dos seus afazeres.
Sueli estava sendo rejeitada e Gildo entrou em desespero, pois sabia que a sua culpa era máxima diante de uma grande tragédia tão horrorosa..
Sueli já no que chegou em prantos, abraçou a um gato e não largou mais. Sempre olhando à distancia a soluçar. Gildo, se pudesse mudar tudo aquilo, certamente mudaria, então resolveu ao menos tentar, desatando tudo que estava amarrado. Afinal, pensava ele; Delfina está morta e enterrada. Sendo assim,, não tinha mais nada para se guardar.
Gildo foi dormir, mas antes cuidou do repouso da criança. No canto, embolada em seus braços, a inocente dormia em soluços com o gato sobre o peito. O trauma, a perca da mãe, feriu o coraçãozinho da menina. Em meio a tanto sofrimento, não somente Sueli chorava, mas Gildo também. sua consciência, não mais o deixava de boca calada.
Levantou-se da cama no meio da noite, e foi até o quarto da mãe e começou a discutir a permanência da criança em sua casa. E vendo que a dificuldade de convencer sua mãe estava indo de mau, para pior, sentiu-se obrigado a soltar os podres. Foi até o quarto de seus irmãos e acordou-os, um por um. Passou pelo seu, pegou Sueli em seus braços, e disse:
_A minha mãe, acha que filho só tem mãe? Além de filho ter pai, o pai também tem que brigar pelo filho, sabia? Se o pai de Sueli viesse a brigar por ela, o que a senhora diria?
_Se esta menina tivesse um pai de verdade, e se ele aparecesse, mesmo depois de tudo o que aconteceu, eu ainda ficaria muito satisfeita.
Olha, mamãe, eu estou brigando com a senhora, porque esta menina é minha filha.. Eu e Delfina tivemos Sueli juntos. Eu não sou o tio, nem o padrinho dela. Sou o pai.
Então, você é culpado de tudo, Gildo? _ Gritou a mãe com furor. _ Então foi você e Delfina que acabaram com a nossa família? Delfina até depois de morta, é perigosa. Vocês dois, são dois sem-vergonhas. E o preço do pecado Gildo, é a morte. Você acha que eu aceitaria Sueli, com mais este problema, Gildo? Agora é que eu quero mais pressa de ficarmos livres dela. E você também procure o seu rumo..
Gildo saiu cabisbaixo, sem falar mais nada, colocou a filha de volta na cama, pegou a arma que ficava debaixo do travesseiro, saiu pra fora e disparou um tiro no ouvido. Correram todos para ver, e ele estava acabando de morrer. Todos estavam desesperados e assustados com o que viram. E Joaquina já sem fôlego, perguntou debruçada sobre o seu corpo:
_Por que fez isso, meu filho?
E Gildo, só falava isto:
_Cuida da minha filha por mim. A minha filha, não merece sofrer, e...
Vendo o filho morrer, Joaquina deu um grito desesperado e acabou infartando. Num espaço de quinze dias, veio a falecer.
Quase tudo o que tinham, já estava perdido com contas que não tinham sido pagas. E os três tios, não se importando com a criança, ergueram as malas e se foram.
_Sueli ficou chorando largamente abraçada ao seu gato, jogada em qualquer canto, dormindo em qualquer lugar. Quando a fome apertava comia o que encontrava. Por vezes chegou chorando, toda suja e com a roupa rasgada em lugares, na esperança de que alguém a defendesse. Sueli só ia e não voltava. quando avistava uma mulher com os traços de sua mãe, saía correndo e gritando:
Mamãe, mamãeeeeeeee.
E ao se deparar com uma estranha, caía sentada onde estava e entrava em desespero. Sem apoio, sem calor familiar a menina estava numa viagem sem volta. As pessoas que conheceram Delfina e a família dela, sempre se perguntavam:
_Que fim levou Sueli?
Espero que a história em si, sirva de incentivo na questão que venha melhorar na educação, cuidados e amor, quando se trata na convivência familiar e social de um ser humano.
Olhe e eduque hoje, pra não perder ou se decepcionar amanhã.
MARY PEGO

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