sexta-feira, 9 de junho de 2017
O PREÇO DO PECADO. ( 3 )
QUE FIM LEVOU SUELI?
_Olha, seu João. Sua mulher está muito bem de saúde.
E o homem injuriado com a conclusão do curandeiro, disse em voz alta:
_Como é que o senhor pode me dizer uma coisa dessa? A minha mulher, se o senhor quer saber, há seis meses não se levanta daquela cama, está toda inchada e o senhor me diz que ela não tem nada?
_Infelizmente. _ insistiu o curandeiro, enfático. _ Não posso dar um outro diagnóstico a ela. A sua mulher está com manha e como faz muito tempo que não toma sol, o corpo começou a inchar.
_Começou a inchar, o senhor diz? Tá que é uma bola, de tão doente, e começou inchar.
Como estivesse a rezar, levantou os olhos e as duas mãos postas e disse: _É mole, Deus? Diz pra mim, se um homem que tem sangue nos olhos, pode aguentar uma afronta desse tamanho?
O curandeiro não receitou nada a não ser que Joaquina se levantasse e levasse a vida normal de antes.
João, foi até o quarto, depois que o curandeiro foi embora, e surpreendeu-se com a mulher já de pé, e ao perguntar se estava melhor, ela respondeu desaforadamente:
_Ué, aquele curandorzinho de meia- tigela não disse que não estou doente? Então me levantei pra poder morrer mais depressa.
O marido muito sem jeito, não soube responder no momento e saiu meio descontrolado de raiva pra roça.
Ao retornar já bem tarde, achou o serviço todo feito por ela, e quando alguém ia ajudá-la, ela o interrompia dizendo:
_Deixe-me fazer, só assim eu morro de vez pra parar de incomodar vocês.Aquele desgraçado disse que eu fingi a todo este tempo, não é? Pois então me deixe.
Joaquina não voltou mais para a cama, ficou bonita, alegre e saudável.
O namoro de Delfina estava indo muito bem, o povo que antes não cuidava de outra coisa a não ser da mocinha, procurou esquecê-la, pois estava trabalhando muito em casa e seu comportamento era de dar inveja em muitos por ali. É claro que os homens a desejavam por ser uma mulher belíssima, mas o medo e a desconfiança falavam mais alto. Quando a patota masculina se ajuntava, começava logo a levantar as dúvidas, e surgiam perguntas como:
_O que será que queimava tanto a mocinha? Será que o namorado apagou o fogo dela?
_Eu não acredito que capeta possa a vira virar anjo, assim de repente.
E ficava a dúvida e a pergunta principal:
Quem será ela, afinal?
_Poxa, eu sei lá. _ Respondia um qualquer, e o restante das respostas eram abafadas por gargalhadas.
A surpresa popular estava de bem com a vida. Cantando músicas religiosas, andando sempre acompanhada dos pais, e...O povo esperando o próximo vexame. O namorado dela parecia ser um bom rapaz e providenciou para que o casamento saísse o mais breve possível. E para surpresa de todos, um dia, antes do meio-dia, Delfina chegava muito bem arrumada, protegida do sol por uma sombrinha das mais luxuosas, na companhia de sua mãe, batendo palmas em todas as portas daquela redondeza.
_Bom , dia! Eu vim pessoalmente convidá-los pro meu casamento que será no último sábado deste mês
_Não diga! Que bom, Delfina. É claro que nós iremos. Será um prazer.
A festa foi providenciada da melhor forma possível.
A mãe de Sérgio, noivo de Delfina, era uma mulher muito fina e com o apoio dos pais da moça, mandou que uma especialista em vestidos caríssimos confeccionasse o vestido da moça. A beleza do vestido era invejável, e quando a moça o vestiu para experimentar, transformou-se numa deusa.
A um quilômetro da casa da moça, foi feito com folhas de coqueiro, uma passagem natural para que os noivos passassem por baixo. E a cada metro, teria uma menina muito bem produzida em cada um dos lados, com flores perfumadas em cestinhas para serem jogadas. Tudo foi muito bem ensaiado.
A passarela foi feita um dia antes do casamento, mas Roberto, por ciúmes, tarde da noite foi lá e mandou tudo abaixo à foiçadas. Ninguém ficou sabendo quem foi o autor da desordem e tudo foi refeito.
Na manhã do casamento, Delfina amanheceu em gargalhadas e seguidamente perguntava para alguém:
_O que é que está acontecendo? Vai ter festa por aqui? Quem é que vai se casar?
_Você vai se casar. _ disse alguém, sem saber se a moça estava falando sério, ou não.
_Eu? Acho que vocês estão brincando com a minha cara, ou não estão? _ E rindo sem parar saiu dando empurrões em todos, chamando-os para ver o que estavam cansados de ver: _Mas vocês são bestas, heim? Caíram direitinho no que armei. _E chamando a atenção de todos perguntava: _ Quem é que se habilita a se casar por mim? Heim? Heim? Quem é que quer levar aquele trouxa adoidado pra casa? Digam-me, por favor, porque eu não sou nenhuma louca de assumir um compromisso desse.
E saindo como se nada estivesse acontecendo, passava em todas as casas e abria todas as portas e janelas deixando-as escancaradas a mercê de qualquer um. Com muito o que comer e tomar, o pessoal que foi para festa não deixou de festejar.
Seu João mandou um amigo ir até a casa do noivo e contar o acontecido. Ao receber a notícia, o rapaz foi como um boi bravo à casa da moça por não acreditar no que ouviu; chegando lá, deparou-se com a festança e com os pais tristes e cabisbaixos. Não falou com ninguém, pegou o seu burro e voltou no mesmo ato para casa.
A desistência da moça fez com que reacendesse ainda mais a paixão de Roberto e então, após saber tudo, tintim por tintim, resolveu procurá-la para lhes dizer o quanto era forte o seu amor por ela. Saiu cegamente atrás de seu grande amor. Não andou muito e a encontrou se banhando em um rio de águas límpidas, então gritou pelo seu nome:
Delfina! Sou eu, Roberto.
O que é que você quer? _Gritava a moça irada. _ O que veio fazer aqui?
O rapaz muito emocionado pela paixão, disse-lhe:
Eu soube que você desistiu de se casar, e quero que você saiba o quanto estou feliz com a sua atitude.
Delfina, como era a mesma de sempre, fingiu gostar.
_Nossa, eu não sabia que você me amava tanto assim. Como é que não me disse isso antes?
_Falta de chances, ou talvez por vergonha.
E a traidora em sorrisos pediu a ele que fosse se banhar com ela. E quando ele entrou na água, ela saiu nadando em direção ao lado mais fundo e segurou-se em um galho de uma árvore que havia caído ali por muitos anos.
Quando o rapaz se aproximou dela, ela segurou firme em um dos galhos e deu-lhe com os dois pés sobre o seu rosto e em seguida quebrou um , e com muita raiva bateu com, em sua cabeça. Roberto, mortalmente machucado, afundou no rio e só após três dias encontraram o seu corpo.
Depois do que fez, vestiu-se e continuou a sua peregrinação. Muito insensata, subindo em árvores e chicoteando os cachorros que a estranhavam. Todos estavam impressionados com o que viram, mas não tanto.
Carlota, que estava no dia da festa, com o seu jeito abobado e com fala mole e arrastada, misturando-se em babas, de vez em quando lembrava:
_Quem é que não esperava por isso? A desvairada nunca vai mudar.
Carlota estava certa. A maioria que ali estava, não apostava nada em Delfina. Ou quase nada. Os pais da moça não comentaram nada com ninguém, muito menos com Delfina que se cansou do silêncio e desabafou com muita agitação.
_Poxa, mamãe, parece que você e o papai querem mesmo é ficar livres de mim. Depois de tudo que aconteceu comigo, nenhum de vocês quis saber p porquê de tudo isto. _E sem ninguém abrir a boca, ela continuou: _ Na última vez que o Sergio esteve aqui, ele insistiu muito para que tivéssemos relações íntimas e eu não quis. E quando ele percebeu que não haveria acordo nenhum, me tratou muito mal e falou coisas que me humilharam muito.
E colocando as mãos sobre o rosto, sentou-se e banhou-se em lágrimas.
_Mas Delfina, por que é que não disse isso a nós?
_Porque achei que vocês não iriam se importar comigo.
_O que é isso, minha filha? Jamais iríamos fazer isso. E se ele te fez tudo isso, por que você não o deixou no mesmo dia?
Porque eu gostava dele, e tentei me conformar com a perda. E então, resolvi que não podia agir diferente.
Os pais da moça sentaram-se ao seu lado, bastante revoltados, passaram as mãos sobre a cabeça da suposta vítima, e choraram em trio.
Gildo ao chegar em casa, quis saber porque a orquestra estava chorando, e quando soube, uniu-se ao pai. Armaram-se até os dentes e passaram a procurar o antigo e desordeiro noivo, para que ele lhes prestasse contas.
Sérgio não se acovardou e fez o mesmo.
Quando os parentes de Delfina perceberam que o moço não estava pra brincadeira, resolveram recuar.
De longe, quando os três se avistaram, só Sergio sacou a arma, e como um louco foi ao encontro dos dois.
_O que vocês querem comigo?
_Nada não, por quê?
_É que fiquei sabendo que vocês estavam me procurando pra me matar. E como eu não devo nada a ninguém, vou provar isso do jeito que você quiserem.
_Como é que queremos te matar, se nem sacamos as armas?
E assim, Sérgio foi para um lado e João e Gildo para o outro.
Os dois frouxos fizeram de tudo para não se encontrar mais com Sérgio. Onde sabiam que ele estava, davam meia volta e tomavam outro rumo. No caminho de volta pra casa, os dois sussurravam muito aliviados:
_Escapamos por um triz. Aquele homem é um doido varrido. Viu papai como riscou até os nossos pés com a faca que tirou da bainha?
_Vi nada! Um homem endiabrado como eu estava no momento, não vê pouca coisa. Tem que busca-pé para que ele veja.
_Papai, mas o senhor nem se mexeu com tudo aquilo? Se quisesse acabar com o senhor, não precisava esforço nenhum. Veja como sangram os nossos pés? Sérgio por estar com o demônio no couro, cortou-os.
_Deixe isso pra lá.
Ao chegar em casa, o pai da moça, combinado com o irmão, disse a ela que o rapaz assumia qualquer desordem que ele pudesse ter feito, mas só mediante atestado médico, e Delfina se recusou dizendo:
_Mas ele não chegou a me fazer nada, papai. Eu não o aceitei.
_Mas Delfina, ele nos disse que você não é mais virgem.
_Se não sou, papai, isso não é da conta dele.
E como a resposta da moça abalou muito, eles resolveram se calar.
O irmão da moça não concordava co esta mentira que combinou com o pai, pois tinha medo de as coisas pudessem ficar bem piores, e falava sozinho:
_Ah, se papai descobre mais coisas além do que ele procura...não só a nossa casa pega fogo, mas sim o sítio todo vira um fogaréu, e não há rio que resolverá.
E quando surgiam comentários a respeito, sentado no seu canto, deslizando suavemente as mãos, hora nas barbas ralas, hora nos cabelos dourados, ficava a murmurar:
_Ora, Delfina, se te pegam, você está no sal!
E voltando atrás, dizia: _Nós dois estamos fritos.
Delfina continuava aprontando pra valer.
Passaram-se apenas três meses, numa tarde nebulosa, um homem muito ofegante chegou à cavalo na casa de João para avisá-lo de que a mãe de Joaquina havia falecido. A avó Deltrudes morava muito longe e todos queria vê-la pela última vez. E João, para não decepcionar ninguém, arranjou um vizinho de confiança para que olhasse a casa e tratasse dos animais. Foram todos, e todos estavam muito tristes com a perda. A casa na qual velavam Deltrudes era enorme e estava abarrotada de visitas. O pátio estava com gente por todo o canto, e como sempre, Delfina como estava sempre atenta em tudo, não pode deixar de notar o tal Zé.
_José, era um rapaz que morava naquelas redondezas há muitos anos. Era trabalhador, dedicado em tudo e muito religioso. Tinha a pele e cabelos muito claros, como os de Delfina. Só a conduta era diferente.
Antes de falar com a moça, o rapaz pediu a um senhor, muito íntegro e amigo da família, para que procurasse os pais da garota depois do enterro e falasse à respeito do seu interesse. Delfina, no momento que viu o rapaz, esqueceu-se de tudo, até da avó morta. Não via mais nada a não ser o Zé. E como sabia muito bem seduzir um homem, às escondidas aprontou. Não sabia quem era o rapaz, nem sequer o seu nome. Ambos sabiam que eram solteiros, porque Getunilo, um irmãozinho mais novo, ao perceber que se olhavam, foi até a ale e lhe perguntou:
_Como é o seu nome?
_Por que você me pergunta, moleque?
_A minha irmã Delfina foi quem me mandou pergunta-lo.
Quem é Delfina?
_Minha irmã. _E apontou uma moça cheia de charme e que o olhava com olhos sedutores, jogando bicotas.
O Zé já pasmado com a atitude e beleza da moça, parecia ter pressa em dizer o seu nome:
_Zé, Zé, Zé, é...José o meu nome. Vai garoto e diga pra ela que é José que me chamo.
E lá se foi o menino.
_Ele se chama José.
_Por que é que você foi até lá falar com ele?
_Ele me chamou pra me perguntar quem era você. E por coincidência eu era o seu irmão. Aí você já sabe, né?
_Ele não te disse onde mora?
_Não.
_Não te disse que quer falar comigo?
Não, mas parece estar gostando de você.
Então volte lá e pergunte a ele, se quer falar comigo. Se quiser, eu estarei o esperando lá atrás da casa.
E Getunilo, voltando lá, fez tudo como mandara a irmã. E como os dois eram livres, ele foi conversa com a moça, e imediatamente iniciaram o namoro.
Antes de sair o enterro, Delfina mal despediu-se da avó, e preferiu não ir até ao cemitério. Naquele tempo os enterros iam feito procissões. Quatro pessoas pegavam cada um em uma das alças do caixão e lá se iam rezando e açoitando o caixão para que o defunto não ficasse pesado. Andavam quilômetros se revezando. Ao retornar para casa, dona Joaquina, antes de entrar, foi logo alertando a todos:
_Vamos embora.
_Mas já mamãe?
_Já, filha, nossa casa está sozinha, e não tenho mais nada pra fazer aqui.
_Está bem, mamãe. _ E virando-se para o Zé disse: _Você já sabe o meu endereço, e então resta-me esperar por você em minha casa.
E o rapaz, balançando a cabeça, afirmou que iria vê-la o mais rapidamente possível! O que foi verdade, pois não demorou três dias, ele apareceu acusando saudades. Foi bem recebido por todos e os passeios por lá continuaram.
As pessoas que conheciam a moça, já não davam importância para mais nada que ela fazia, mas reconheciam que mesmo não merecendo a confiança de ninguém, ela estava calma e religiosa. Ganhou um voto de confiança até do padre da região, acompanhando rezas, aconselhando e ensinando crianças que iriam para a primeira comunhão.
Dava-se pra se dizer que aquela Delfina de antigamente havia morrido e sido enterrada, mas ninguém arriscava a pôr as mãos no fogo por ela.
Enquanto seu pai saía nos finais de semana para fazer suas demonstrações fabulosas, Delfina e seus irmãos saíam às escondidas,trabalhando a noite inteira para colocar empecilhos nas entradas pelas quais os feiticeiros passariam; estes, ao saírem de madrugada, deparavam com o entulho e eram obrigados a retirar e deixar a passagem livre. Seu João e seu companheiro, (que exigia da população que lhe chamasse de) Preto Velho, por não serem mais jovens, quase se matavam com aquele trabalhão todo. Eles xingavam, mas não desconfiavam de ninguém, pois nunca tinham visto algo parecido.
O pai de Delfina voltava pra casa com o sol alto, e sem comer e beber ia se deitar e passava o dia dormindo. Pensava estar enganando alguém, mas estava sendo enganando, tanto que a saúde estava indo por água abaixo.
João, o famoso, sempre procurado pelas pessoas, não conseguia mais enganar nem a si próprio. A doença veio rapidamente para que não deixar o velho esperto escapar. Há muitos anos ele já lutava contra uma úlcera e depois de tanto perambular, foi acometido pela tuberculose e pela morfeia. Leproso, sentiu-se muito mais pressionado e resolveu acelerar o casamento de Delfina.
FICÇÃO
ISBN 85-7372-206-1
MARY PEGO
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