QUATORZE E DEZESSEIS.
Quando ainda criança, todos os dias nós meninas iam e voltavam da escola sendo chutadas, humilhadas com algazarras vindas de dois moleques que eram irmãos.
Antes de chegar em minha casa, tínhamos que por obrigação passar pela frente da casa deles.
Um dia, depois de apanhar muito pelo caminho, resolvi esclarecer os fatos aos pais deles, e no que iniciei a desenrolar, a mãe deles começou;
_Bem feito pra você, negrinha! É bem melhor que meus filhos batam, ao invés de apanhar. Aqui em casa se um filho meu chegar reclamando que apanhou na rua, apanha de novo. Some daqui.
Fiquei tão revoltada como que ouvi que acabei maltratando a mulher e obrigada a fazer malabarismos para que seus filhos não me agredissem mais do que já tinham me agredido até ali.
No que cheguei em casa e contei o que aconteceu para mamãe, ela se exaltou, dizendo-me;
_Como você maltrata as pessoas mais velhas? Porque não me contou o caso primeiro, que eu como mãe resolveria tudo? Qual foi o dia que te ensinei afrontar os adultos?
Você esta merecendo um bom esfrega, pra deixar de ser um brucutu.
Amanhã, vou te levar até a casa da mãe do garoto, e você vai pedir desculpas pessoalmente a ela.
_Não vou. Retruquei toda arrebentada a chorar.
_Não vai? É claro que vai, sou sua mãe e me deve total obediência.
_ E o que vou dizer a ela? questionei?
_Você vai saber o que falar, não pode ser tão tapada assim. Te educo pra quê?
No outro dia, após o da café da manhã, eu torcendo pelo esquecimento dela, me disse;
_Vamos! Se falar bobagem, vai apanhar na frente dos que tiverem presente.
No que chegamos, mamãe bateu palmas e justamente ela quem tanto me agrediu, saiu já me desaforando.
_O que essa negrinha safada esta fazendo em minha porta?
Mamãe mais que depressa;
_Veio pedir desculpas pra senhora, pela falta de educação que exibiu ontem.
_Não desculpo criança mal criada. Os meus filhos já receberam ordem para bater nela. Reclamaram muito do comportamento dela comigo, ultimamente. Tem que apanhar mesmo!
_Os seus filhos são bem maiores que ela. Ela é pequena vistos os teus. Não vai conseguir bater neles.
A mulher calou-se, fomos pra casa e a coisa continuou.
Houve uma vez que precisou a interferência de estranhos para a minha defesa. Eu tinha dez anos e eles tinham quatorze e dezesseis.
Como as coisas não estavam indo nada bem, fui novamente reclamar para a mãe deles, mas neste dia o pai estava presente e ouviu o meu desabafo calado.
Fui chorando pra casa e no outro dia, aconteceu o inesperado.
Na volta da escola, quando passaram a me jogar ao chão, chutar e me humilhar, ouvi uma voz masculina os chamando pelos seus nomes.
Era o pai dele que estava em companhia da mãe, apontando o dedo polegar para esposa dizendo-os;
_Não sou tua mãe que passa a mão na cabeça de vocês. Ela deixa vocês dois judiar dos filhos dos outros, mas quando a coisa é com vocês, ela se encrespa. De hoje em diante, vão ter que andar na linha.
Aquele tempo os pais usavam de agressão para corrigir os filhos, e eu não gostei nada do que vi.
Ele os açoitavam e dizia;
_Peçam desculpas!
_Não. Diziam com os olhos acessos a me olhar. Pode nos matar, mas não pedimos.
_Peçam desculpas...!
Não pediram.
Nos mudamos dali e nunca mais soube notícias deles, até pouco tempo atrás, quando alguém bateu palmas no meu portão.
Saímos para atender, e notei que era um vendedor ambulante.
Enquanto nos seduzia para que comprasse o seu produto, chegamos a conclusão de quem se tratava.
Um pai de família tentando ganhar o pão de cada dia, me pedindo perdão pelo que me fez, lá no passado.
Me disse estar muito arrependido.
Eu lhe mostrei algumas marcas que ficaram cravadas em meu corpo para sempre.
Disse-me que não suportaria saber, que uma filha sua teria sido agredida,da forma que me agrediu.
APROVEITEI O ENSEJO E LHE DISSE QUE A EDUCAÇÃO VEM DE CASA.
E SE O PAI DELE NÃO INTERFERISSE, AGINDO FORTE, SE DEPENDESSE DA SUA MÃE, ELES TERIAM ME MATADO.
MARY PEGO
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