FEIA, MAS ESPERTA PRA BURRO.
Quando ainda criança, na cidadezinha em que morávamos, certa manhã, dois policiais batiam em nossa porta, pedindo para que mamãe nos levassem até a delegacia da cidade, para que fôssemos vacinados contra a paralisia infantil.
Eu, a quadrúpede da manada, desconfiada passei a dar voltas pela casa a tremer.
À partir daquele momento, nada do que me mandava fazer, eu ouvia.
E meus passos ficaram dificultados de modo a não poder andar direito.
Acionei os freios total.
Mamãe mais que depressa, juntou todos nós crianças e foi pra lá.
Fui praticamente arrastada pela mamãe que nervosa ficou.
Uma fila enorme se fazia meio ao sol escaldante, e eu com o coração saindo pra boca fiquei a bater queixo, feito um porco do mato.
Os policiais chegavam com uma pistola no braço das crianças que...Desesperadas gritavam e se esperneavam pela poeira. Coitados! Só se via nelas, olhos e dentes.
Eu ao presenciar toda aquela desordem, fiquei quase desmaiando de tanto medo.
Quanto mais chegava a minha vez, mais o som da minha garganta mudava.
Por fim, passei a coaxar.
Nessas alturas, mamãe já tinha perdido toda a paciência comigo.
Segurada em minha roupa, eu engatinhava pelo seus pés em prantos.
Credo, nem a caçula foi tão covarde!
Mamãe me cutucava com um dos pés para que eu avançasse na fila e dizia;
_Deixe de ser covarde! Vamos!
_A senhora tá me machucando. Dizia na esperança de que tivesse pena e me soltasse.
E não foi que deu certo?
Quando me libertei das suas garras, sai correndo cidade afora, sem rumo pra tentar com que me deixassem , mas os meus lamentos, atravessava o povoado por todos os lados.
Dois policiais saíram a minha caça, mas quando vi que o meu choro indicava o meu esconderijo, me escondi mais longe e calada fiquei.
DESDE PEQUENA, EU JÁ ERA ESPERTA PRA BURRO!
Tudo ficou bem. Nada do que eu não queria que acontecesse, aconteceu.
Ainda bastante desconfiada, voltei pra casa à tardinha.
Ao chegar, mamãe não deixou barato com o seu sermão.
Passou o tempo todo me espezinhando.
Jantamos e fomos dormir com aquele disco riscado a falar;
_Vai adoecer burrico. Vai morrer porque não se vacinou. Os seus irmãos foram mais espertos que você e vão ficar saudáveis. Você é um bicho do mato, pior que todas as outras crianças que lá estavam. Eu a levei e não vou me preocupar com mais nada.
O meu coração sabia que tinha algo de errado, por trás de tanta saliva jogada fora por mamãe, mas o que seria afinal? Se estivesse tudo perdido, como falava, o corretivo que me daria seria outro bem pior.
Depois de já estar dorminho, acordei com dois policiais em volta da minha cama. Um me imobilizou e o outro me vacinou, dizendo;
_Fuja negrinha feia! Nos fez perder muito tempo te procurando sem resposta. Se acha a espertalhona agora? Então fujaaaa!
Fiquei magoada pelo insulto que me fizeram! Me xingaram de feia. Pra mim, o xingamento foi muito pior que a invasão para me vacinar. Aquilo ficou registrado em meu cérebro por muito tempo.
FEIA? MINTA, QUE EU FINJO QUE ACREDITO, VAI?
MARY PEGO
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