quarta-feira, 24 de agosto de 2016

FIQUEI A BATER O QUEIXO, FEITO PORCO DO MATO.

                   FEIA, MAS ESPERTA PRA BURRO.

Quando ainda criança,  na cidadezinha em que morávamos, certa manhã, dois policiais batiam em nossa porta, pedindo para que mamãe nos levassem até a delegacia da cidade, para que fôssemos vacinados contra a paralisia infantil.
Eu, a quadrúpede da manada, desconfiada passei a dar voltas pela casa a tremer.
À partir daquele momento, nada do que me mandava fazer, eu ouvia. 
E meus passos ficaram dificultados de modo a não poder andar direito. 
Acionei os freios total.
Mamãe mais que depressa, juntou todos nós crianças e foi pra lá. 
Fui praticamente arrastada pela mamãe que nervosa ficou.
Uma fila enorme se fazia meio ao sol escaldante, e eu com o coração saindo pra boca fiquei a bater queixo, feito um porco do mato.
Os policiais chegavam com uma pistola no braço das crianças que...Desesperadas gritavam e se esperneavam pela poeira. Coitados! Só se via nelas, olhos e dentes.
Eu ao presenciar toda aquela desordem, fiquei quase desmaiando de tanto medo.
Quanto mais chegava a minha vez, mais o som da minha garganta mudava. 
Por fim, passei a coaxar. 
Nessas alturas, mamãe já tinha perdido toda a paciência comigo.  
Segurada em minha roupa, eu engatinhava pelo seus pés em prantos.
Credo, nem a caçula foi tão covarde! 
Mamãe me cutucava com um dos pés para que eu avançasse na fila e dizia;
_Deixe de ser covarde! Vamos!
_A senhora tá me machucando. Dizia na esperança de que tivesse pena e me soltasse.
E não foi que deu certo?
Quando me libertei das suas garras, sai correndo cidade afora, sem rumo pra tentar com que me deixassem , mas os meus lamentos, atravessava o povoado por todos os lados.
Dois policiais saíram a minha caça, mas quando vi que o meu choro indicava o meu esconderijo, me escondi  mais longe e calada fiquei.
DESDE PEQUENA, EU JÁ ERA ESPERTA PRA BURRO!
Tudo ficou bem. Nada do que eu não queria que acontecesse, aconteceu.
Ainda bastante desconfiada, voltei pra casa à tardinha.
Ao chegar, mamãe não deixou barato com o seu sermão. 
Passou o tempo todo me espezinhando. 
Jantamos e fomos dormir com aquele disco riscado a falar;
_Vai adoecer burrico. Vai morrer porque não se vacinou. Os seus irmãos foram mais espertos que você e vão ficar saudáveis. Você é um bicho do mato, pior que todas as outras crianças que lá estavam. Eu a levei e não vou me preocupar com mais nada.
O meu coração sabia que tinha algo de errado, por trás de tanta saliva jogada fora por mamãe, mas o que seria afinal? Se estivesse tudo perdido, como falava, o corretivo que me daria seria outro bem pior.
Depois de já estar dorminho, acordei com dois policiais em volta da minha cama. Um me imobilizou e o outro me vacinou, dizendo;
_Fuja negrinha feia! Nos fez perder muito tempo te procurando sem resposta. Se acha a espertalhona agora? Então fujaaaa!
Fiquei magoada pelo insulto que me fizeram! Me xingaram de feia. Pra mim, o xingamento foi muito pior que a invasão para me vacinar. Aquilo ficou registrado em meu cérebro por muito tempo.
FEIA? MINTA, QUE EU FINJO QUE ACREDITO, VAI?

































                    
                 MARY PEGO

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