EU NASCI, PRA ME DAR MUITO BEM NA VIDA.
Pra que a gente se dê bem na vida, não é preciso ser uma celebridade.
Ganhar muito dinheiro ou arranjar um bom partido para se casar.
Muitos ao ouvir uma dessas frases, logo vão pensar que alguém subiu na vida porque foi agraciado por um desses motivos.
Não, não sou celebridade e não posto com a medíocre intenção em um dia vir ser uma.
E como uma pessoa humilde nos quesitos desafortunados monetariamente, sei viver muito bem com pouco dinheiro.
E quanto se ter um bom parceiro... ah, ah, ah...nem te conto, porque isso eu não divido com ninguém.
Penso que nasci pra me dar muito bem na vida, porque não fantasio nada na vida, a não ser na cama.
Muita gente, perde o juízo, em busca de fama.
Correm, correm e choram de decepção ao ver que lutou muito sem 'sucesso" algum.
SUCESSO?
Sucesso é viver feliz, assim do jeito que vivo.
Sucesso é não passar a perna nos outros.
Sucesso é poder sorrir, sabendo que a sua consciência aprova o seu sorriso.
A não ser que a sua consciência estiver morta.
Quero dizer-lhes, que sei que jamais poderá vir a acontecer, mas tenho medo de ficar famosa.
Quando comecei a escrever, foi para me distrair. Estava me sentindo com necessidade de voltar a escrever. Desde criança, escrevi impulsionada por mim mesma. Queria ver o que pensava, estampados nos papéis. Tudo o que ocorria, fantasiando a vida, escrevia. Quando alguém de casa me corrigia sério, por estar gastando as folhas do caderno, dizendo que não era tarefa dada pela professora, eu as rasgava meios a corretivos fortes, e passava a chorar.
No outro dia, uma nova história brotava numa folha virgem, mas antes que mamãe desse conta, fazia-os desaparecer.
Pra dizer a verdade, com essa minha ignorância, escrevi pela vida toda e repeti os mesmos erros da infância.
Nunca gostei que alguém visse os meus escritos, mas com a angústia que passei em querer me aproximar de um familiar, acabei escrevendo para que o mundo inteiro pudesse ver.
Sou muito emotiva, medrosa e vivo chorando por muito pouco.
Pode ser por falta de conhecimento de minha parte, mas acho que celebridades, pessoas de destaques e de grandes importância na sociedade, sofrem demasiadamente.
E eu tenho medo de sofrer.
Pra que mudar meu status se assim já vivo no céu?
MARY PEGO
domingo, 11 de junho de 2017
sexta-feira, 9 de junho de 2017
O PREÇO DO PECADO. ( 3 )
QUE FIM LEVOU SUELI?
_Olha, seu João. Sua mulher está muito bem de saúde.
E o homem injuriado com a conclusão do curandeiro, disse em voz alta:
_Como é que o senhor pode me dizer uma coisa dessa? A minha mulher, se o senhor quer saber, há seis meses não se levanta daquela cama, está toda inchada e o senhor me diz que ela não tem nada?
_Infelizmente. _ insistiu o curandeiro, enfático. _ Não posso dar um outro diagnóstico a ela. A sua mulher está com manha e como faz muito tempo que não toma sol, o corpo começou a inchar.
_Começou a inchar, o senhor diz? Tá que é uma bola, de tão doente, e começou inchar.
Como estivesse a rezar, levantou os olhos e as duas mãos postas e disse: _É mole, Deus? Diz pra mim, se um homem que tem sangue nos olhos, pode aguentar uma afronta desse tamanho?
O curandeiro não receitou nada a não ser que Joaquina se levantasse e levasse a vida normal de antes.
João, foi até o quarto, depois que o curandeiro foi embora, e surpreendeu-se com a mulher já de pé, e ao perguntar se estava melhor, ela respondeu desaforadamente:
_Ué, aquele curandorzinho de meia- tigela não disse que não estou doente? Então me levantei pra poder morrer mais depressa.
O marido muito sem jeito, não soube responder no momento e saiu meio descontrolado de raiva pra roça.
Ao retornar já bem tarde, achou o serviço todo feito por ela, e quando alguém ia ajudá-la, ela o interrompia dizendo:
_Deixe-me fazer, só assim eu morro de vez pra parar de incomodar vocês.Aquele desgraçado disse que eu fingi a todo este tempo, não é? Pois então me deixe.
Joaquina não voltou mais para a cama, ficou bonita, alegre e saudável.
O namoro de Delfina estava indo muito bem, o povo que antes não cuidava de outra coisa a não ser da mocinha, procurou esquecê-la, pois estava trabalhando muito em casa e seu comportamento era de dar inveja em muitos por ali. É claro que os homens a desejavam por ser uma mulher belíssima, mas o medo e a desconfiança falavam mais alto. Quando a patota masculina se ajuntava, começava logo a levantar as dúvidas, e surgiam perguntas como:
_O que será que queimava tanto a mocinha? Será que o namorado apagou o fogo dela?
_Eu não acredito que capeta possa a vira virar anjo, assim de repente.
E ficava a dúvida e a pergunta principal:
Quem será ela, afinal?
_Poxa, eu sei lá. _ Respondia um qualquer, e o restante das respostas eram abafadas por gargalhadas.
A surpresa popular estava de bem com a vida. Cantando músicas religiosas, andando sempre acompanhada dos pais, e...O povo esperando o próximo vexame. O namorado dela parecia ser um bom rapaz e providenciou para que o casamento saísse o mais breve possível. E para surpresa de todos, um dia, antes do meio-dia, Delfina chegava muito bem arrumada, protegida do sol por uma sombrinha das mais luxuosas, na companhia de sua mãe, batendo palmas em todas as portas daquela redondeza.
_Bom , dia! Eu vim pessoalmente convidá-los pro meu casamento que será no último sábado deste mês
_Não diga! Que bom, Delfina. É claro que nós iremos. Será um prazer.
A festa foi providenciada da melhor forma possível.
A mãe de Sérgio, noivo de Delfina, era uma mulher muito fina e com o apoio dos pais da moça, mandou que uma especialista em vestidos caríssimos confeccionasse o vestido da moça. A beleza do vestido era invejável, e quando a moça o vestiu para experimentar, transformou-se numa deusa.
A um quilômetro da casa da moça, foi feito com folhas de coqueiro, uma passagem natural para que os noivos passassem por baixo. E a cada metro, teria uma menina muito bem produzida em cada um dos lados, com flores perfumadas em cestinhas para serem jogadas. Tudo foi muito bem ensaiado.
A passarela foi feita um dia antes do casamento, mas Roberto, por ciúmes, tarde da noite foi lá e mandou tudo abaixo à foiçadas. Ninguém ficou sabendo quem foi o autor da desordem e tudo foi refeito.
Na manhã do casamento, Delfina amanheceu em gargalhadas e seguidamente perguntava para alguém:
_O que é que está acontecendo? Vai ter festa por aqui? Quem é que vai se casar?
_Você vai se casar. _ disse alguém, sem saber se a moça estava falando sério, ou não.
_Eu? Acho que vocês estão brincando com a minha cara, ou não estão? _ E rindo sem parar saiu dando empurrões em todos, chamando-os para ver o que estavam cansados de ver: _Mas vocês são bestas, heim? Caíram direitinho no que armei. _E chamando a atenção de todos perguntava: _ Quem é que se habilita a se casar por mim? Heim? Heim? Quem é que quer levar aquele trouxa adoidado pra casa? Digam-me, por favor, porque eu não sou nenhuma louca de assumir um compromisso desse.
E saindo como se nada estivesse acontecendo, passava em todas as casas e abria todas as portas e janelas deixando-as escancaradas a mercê de qualquer um. Com muito o que comer e tomar, o pessoal que foi para festa não deixou de festejar.
Seu João mandou um amigo ir até a casa do noivo e contar o acontecido. Ao receber a notícia, o rapaz foi como um boi bravo à casa da moça por não acreditar no que ouviu; chegando lá, deparou-se com a festança e com os pais tristes e cabisbaixos. Não falou com ninguém, pegou o seu burro e voltou no mesmo ato para casa.
A desistência da moça fez com que reacendesse ainda mais a paixão de Roberto e então, após saber tudo, tintim por tintim, resolveu procurá-la para lhes dizer o quanto era forte o seu amor por ela. Saiu cegamente atrás de seu grande amor. Não andou muito e a encontrou se banhando em um rio de águas límpidas, então gritou pelo seu nome:
Delfina! Sou eu, Roberto.
O que é que você quer? _Gritava a moça irada. _ O que veio fazer aqui?
O rapaz muito emocionado pela paixão, disse-lhe:
Eu soube que você desistiu de se casar, e quero que você saiba o quanto estou feliz com a sua atitude.
Delfina, como era a mesma de sempre, fingiu gostar.
_Nossa, eu não sabia que você me amava tanto assim. Como é que não me disse isso antes?
_Falta de chances, ou talvez por vergonha.
E a traidora em sorrisos pediu a ele que fosse se banhar com ela. E quando ele entrou na água, ela saiu nadando em direção ao lado mais fundo e segurou-se em um galho de uma árvore que havia caído ali por muitos anos.
Quando o rapaz se aproximou dela, ela segurou firme em um dos galhos e deu-lhe com os dois pés sobre o seu rosto e em seguida quebrou um , e com muita raiva bateu com, em sua cabeça. Roberto, mortalmente machucado, afundou no rio e só após três dias encontraram o seu corpo.
Depois do que fez, vestiu-se e continuou a sua peregrinação. Muito insensata, subindo em árvores e chicoteando os cachorros que a estranhavam. Todos estavam impressionados com o que viram, mas não tanto.
Carlota, que estava no dia da festa, com o seu jeito abobado e com fala mole e arrastada, misturando-se em babas, de vez em quando lembrava:
_Quem é que não esperava por isso? A desvairada nunca vai mudar.
Carlota estava certa. A maioria que ali estava, não apostava nada em Delfina. Ou quase nada. Os pais da moça não comentaram nada com ninguém, muito menos com Delfina que se cansou do silêncio e desabafou com muita agitação.
_Poxa, mamãe, parece que você e o papai querem mesmo é ficar livres de mim. Depois de tudo que aconteceu comigo, nenhum de vocês quis saber p porquê de tudo isto. _E sem ninguém abrir a boca, ela continuou: _ Na última vez que o Sergio esteve aqui, ele insistiu muito para que tivéssemos relações íntimas e eu não quis. E quando ele percebeu que não haveria acordo nenhum, me tratou muito mal e falou coisas que me humilharam muito.
E colocando as mãos sobre o rosto, sentou-se e banhou-se em lágrimas.
_Mas Delfina, por que é que não disse isso a nós?
_Porque achei que vocês não iriam se importar comigo.
_O que é isso, minha filha? Jamais iríamos fazer isso. E se ele te fez tudo isso, por que você não o deixou no mesmo dia?
Porque eu gostava dele, e tentei me conformar com a perda. E então, resolvi que não podia agir diferente.
Os pais da moça sentaram-se ao seu lado, bastante revoltados, passaram as mãos sobre a cabeça da suposta vítima, e choraram em trio.
Gildo ao chegar em casa, quis saber porque a orquestra estava chorando, e quando soube, uniu-se ao pai. Armaram-se até os dentes e passaram a procurar o antigo e desordeiro noivo, para que ele lhes prestasse contas.
Sérgio não se acovardou e fez o mesmo.
Quando os parentes de Delfina perceberam que o moço não estava pra brincadeira, resolveram recuar.
De longe, quando os três se avistaram, só Sergio sacou a arma, e como um louco foi ao encontro dos dois.
_O que vocês querem comigo?
_Nada não, por quê?
_É que fiquei sabendo que vocês estavam me procurando pra me matar. E como eu não devo nada a ninguém, vou provar isso do jeito que você quiserem.
_Como é que queremos te matar, se nem sacamos as armas?
E assim, Sérgio foi para um lado e João e Gildo para o outro.
Os dois frouxos fizeram de tudo para não se encontrar mais com Sérgio. Onde sabiam que ele estava, davam meia volta e tomavam outro rumo. No caminho de volta pra casa, os dois sussurravam muito aliviados:
_Escapamos por um triz. Aquele homem é um doido varrido. Viu papai como riscou até os nossos pés com a faca que tirou da bainha?
_Vi nada! Um homem endiabrado como eu estava no momento, não vê pouca coisa. Tem que busca-pé para que ele veja.
_Papai, mas o senhor nem se mexeu com tudo aquilo? Se quisesse acabar com o senhor, não precisava esforço nenhum. Veja como sangram os nossos pés? Sérgio por estar com o demônio no couro, cortou-os.
_Deixe isso pra lá.
Ao chegar em casa, o pai da moça, combinado com o irmão, disse a ela que o rapaz assumia qualquer desordem que ele pudesse ter feito, mas só mediante atestado médico, e Delfina se recusou dizendo:
_Mas ele não chegou a me fazer nada, papai. Eu não o aceitei.
_Mas Delfina, ele nos disse que você não é mais virgem.
_Se não sou, papai, isso não é da conta dele.
E como a resposta da moça abalou muito, eles resolveram se calar.
O irmão da moça não concordava co esta mentira que combinou com o pai, pois tinha medo de as coisas pudessem ficar bem piores, e falava sozinho:
_Ah, se papai descobre mais coisas além do que ele procura...não só a nossa casa pega fogo, mas sim o sítio todo vira um fogaréu, e não há rio que resolverá.
E quando surgiam comentários a respeito, sentado no seu canto, deslizando suavemente as mãos, hora nas barbas ralas, hora nos cabelos dourados, ficava a murmurar:
_Ora, Delfina, se te pegam, você está no sal!
E voltando atrás, dizia: _Nós dois estamos fritos.
Delfina continuava aprontando pra valer.
Passaram-se apenas três meses, numa tarde nebulosa, um homem muito ofegante chegou à cavalo na casa de João para avisá-lo de que a mãe de Joaquina havia falecido. A avó Deltrudes morava muito longe e todos queria vê-la pela última vez. E João, para não decepcionar ninguém, arranjou um vizinho de confiança para que olhasse a casa e tratasse dos animais. Foram todos, e todos estavam muito tristes com a perda. A casa na qual velavam Deltrudes era enorme e estava abarrotada de visitas. O pátio estava com gente por todo o canto, e como sempre, Delfina como estava sempre atenta em tudo, não pode deixar de notar o tal Zé.
_José, era um rapaz que morava naquelas redondezas há muitos anos. Era trabalhador, dedicado em tudo e muito religioso. Tinha a pele e cabelos muito claros, como os de Delfina. Só a conduta era diferente.
Antes de falar com a moça, o rapaz pediu a um senhor, muito íntegro e amigo da família, para que procurasse os pais da garota depois do enterro e falasse à respeito do seu interesse. Delfina, no momento que viu o rapaz, esqueceu-se de tudo, até da avó morta. Não via mais nada a não ser o Zé. E como sabia muito bem seduzir um homem, às escondidas aprontou. Não sabia quem era o rapaz, nem sequer o seu nome. Ambos sabiam que eram solteiros, porque Getunilo, um irmãozinho mais novo, ao perceber que se olhavam, foi até a ale e lhe perguntou:
_Como é o seu nome?
_Por que você me pergunta, moleque?
_A minha irmã Delfina foi quem me mandou pergunta-lo.
Quem é Delfina?
_Minha irmã. _E apontou uma moça cheia de charme e que o olhava com olhos sedutores, jogando bicotas.
O Zé já pasmado com a atitude e beleza da moça, parecia ter pressa em dizer o seu nome:
_Zé, Zé, Zé, é...José o meu nome. Vai garoto e diga pra ela que é José que me chamo.
E lá se foi o menino.
_Ele se chama José.
_Por que é que você foi até lá falar com ele?
_Ele me chamou pra me perguntar quem era você. E por coincidência eu era o seu irmão. Aí você já sabe, né?
_Ele não te disse onde mora?
_Não.
_Não te disse que quer falar comigo?
Não, mas parece estar gostando de você.
Então volte lá e pergunte a ele, se quer falar comigo. Se quiser, eu estarei o esperando lá atrás da casa.
E Getunilo, voltando lá, fez tudo como mandara a irmã. E como os dois eram livres, ele foi conversa com a moça, e imediatamente iniciaram o namoro.
Antes de sair o enterro, Delfina mal despediu-se da avó, e preferiu não ir até ao cemitério. Naquele tempo os enterros iam feito procissões. Quatro pessoas pegavam cada um em uma das alças do caixão e lá se iam rezando e açoitando o caixão para que o defunto não ficasse pesado. Andavam quilômetros se revezando. Ao retornar para casa, dona Joaquina, antes de entrar, foi logo alertando a todos:
_Vamos embora.
_Mas já mamãe?
_Já, filha, nossa casa está sozinha, e não tenho mais nada pra fazer aqui.
_Está bem, mamãe. _ E virando-se para o Zé disse: _Você já sabe o meu endereço, e então resta-me esperar por você em minha casa.
E o rapaz, balançando a cabeça, afirmou que iria vê-la o mais rapidamente possível! O que foi verdade, pois não demorou três dias, ele apareceu acusando saudades. Foi bem recebido por todos e os passeios por lá continuaram.
As pessoas que conheciam a moça, já não davam importância para mais nada que ela fazia, mas reconheciam que mesmo não merecendo a confiança de ninguém, ela estava calma e religiosa. Ganhou um voto de confiança até do padre da região, acompanhando rezas, aconselhando e ensinando crianças que iriam para a primeira comunhão.
Dava-se pra se dizer que aquela Delfina de antigamente havia morrido e sido enterrada, mas ninguém arriscava a pôr as mãos no fogo por ela.
Enquanto seu pai saía nos finais de semana para fazer suas demonstrações fabulosas, Delfina e seus irmãos saíam às escondidas,trabalhando a noite inteira para colocar empecilhos nas entradas pelas quais os feiticeiros passariam; estes, ao saírem de madrugada, deparavam com o entulho e eram obrigados a retirar e deixar a passagem livre. Seu João e seu companheiro, (que exigia da população que lhe chamasse de) Preto Velho, por não serem mais jovens, quase se matavam com aquele trabalhão todo. Eles xingavam, mas não desconfiavam de ninguém, pois nunca tinham visto algo parecido.
O pai de Delfina voltava pra casa com o sol alto, e sem comer e beber ia se deitar e passava o dia dormindo. Pensava estar enganando alguém, mas estava sendo enganando, tanto que a saúde estava indo por água abaixo.
João, o famoso, sempre procurado pelas pessoas, não conseguia mais enganar nem a si próprio. A doença veio rapidamente para que não deixar o velho esperto escapar. Há muitos anos ele já lutava contra uma úlcera e depois de tanto perambular, foi acometido pela tuberculose e pela morfeia. Leproso, sentiu-se muito mais pressionado e resolveu acelerar o casamento de Delfina.
FICÇÃO
ISBN 85-7372-206-1
MARY PEGO
O PREÇO DO PECADO (PARTE 2)
QUE FIM LEVOU SUELI?
Delfina foi dormir, ma só se deitou, pois o sono tinha se ido. Nos seus pensamentos, nem ela mesma acreditava no seu comportamento: _como conseguira aquilo afinal? Lembrou-se que, certa vez, sua mãe lhe contara um fato muito curioso que se passara quando era ainda muito uma menina.
Um dia ao serem convidados para uma festa que seguiria com um baile a noite, na casa de amigos de seus pais, a mãe da menina preparou-a muito bem para levá-la consigo. Como era o costume da época, no local, enquanto os casais dançavam numa sala, seus bebês ficavam num quarto contíguo, onde eles poderiam dormir e ser alimentados tranquilamente. O baile estava animado, e pelo que contava sua mãe, um homem muito mal encarado irritou-se ao ver a sua mulher dançando com o seu inimigo, puxou uma arma, picando bala para todos os lados. Foi um Deus nos acuda.
Naquela confusão, com todo o ambiente escuro, as mães foram desesperadas pegar os seus filhos e saíram às pressas, pois as balas passavam cantando por seus ouvidos. Ao chegarem em casa, levaram maior susto, pois não era o filho deixado no berçário da festa. A cor da pele para alguns deu certo, mas a criança era do sexo oposto. Não tinham como destrocar naquela mesma noite, pois o acesso era difícil, e a chuva tempestuosa já caía por várias horas. Ninguém sabia quem eram os verdadeiros pais e as crianças por estranharem o ambiente e as pessoas, com choro lamentoso estava atormentando e tirando a paz dos desesperados pais.
_Ó Deus! Como vou suportar vê-lo gritar, sabendo que o meu filho está perdido nas mãos de sei lá de quem? Se Deus quiser, no que amanhecer, vou ficar livre desse bocudo que não me dá tréguas. Ah, meu Deus como é que está o meu bebê? Será que estão cuidando direitinho dele?
Antes que o dia clareasse, lá estava a bagunça da destroca.
_Hei...Você foi no baile ontem?
_Sim. Por quê?
_Este bebê que está com você é de quem?
_Não sei.
_Posso vê-lo? Talvez seja o nosso.
E cada um ao verificar, se decepcionava por não conhecê-lo.
A angústia e a vontade dos pais era tanta que na busca se desencontravam uns dos outros. E com aquela andança, eram palmas daqui, dali, e só se ouvia.
_A senhora pode reconhecer esta criança?
_o senhor sabe de quem e bebê?
E assim por diante. por casa a mesma pergunta.
_Eu não sei, mas eu acho que se parece muito com a família do Virgulino.
O outro apavorado dizia:
_Mas onde é que mora esse tal Virgulino?
_Mora a uns três quilômetros daqui. O senhor entra neste carril, vai indo, quando ver uma árvore bem grossa, o senhor entra às esquerdas e não demora muito, vai ver a casa do Virgulino.
Chegando lá a resposta era:
_ Não sei. Não conheço.
Depois de um mês de sufoco, foi que se resolveu o problema. Alguns ficaram doentes e passaram por maus pedaços.
Delfina lembrou também que um dia, ainda muito pequena, ao estar muito bem arrumada para uma festa de batizado, na qual seus pais seriam os padrinhos. Para não sujar o vestido branco que usava, sentou-se numa cadeira que estava na sala e sua mãe pediu-a que não saísse dali. Delfina, sentadinha como mandara a mãe, viu aparecer à porta uma figura muito estranha, que nunca vira por ali. Era de estatura muito pequena, mas muito esperto e a chamava insistentemente para brincar. E ela o acompanhou não se sabe por quanto tempo..
A menina só tinha quatro anos de idade e não tinha forças para fazer o que fez. Joaquina, ao voltar das arrumações para buscar a filha, irou-se por não encontrá-la, e começou a procurá-la e a dizer os nomes que sabia. O meio dia de procura não resolveu nada. então arranjaram muitos homens para ajudar na caçada a Delfina. Como a menina era bem pequena, os caçadores só procuravam em lugares onde pudesse cair, mas quando já estava quase anoitecendo, um dos homens assobiou e fez sinal para que não fizessem barulho, pois onde a menina estava era perigoso se assustar e acabar caindo de lá. Ao vê-la, todos ficaram assombrados. Delfina estava a uns bons quilômetros de casa e a árvore onde estava sofrera queimada, não tinha uma folha sequer e não suportava o peso de alguém com o tamanho dela. O lugar era puro carvão. O curioso é que a menina estava em meio a tantos galhos queimados e não havia mancha alguma em seu vestido. Estava num lugar muito difícil de ser retirada, e enquanto faziam planos para tirá-la de lá, ela conversava com alguém e ria largamente, deixando todos curiosos. Ao ver o tamanho problema, chamaram o padre da capela para benzer, pois essa era a única solução. No local não entrava veículos por ser barranceira e as árvores não tinham sido derrubadas. Nessa hora a mãe entrou em desespero e perguntava para a garota:
_Minha filha, com que é que você está conversando?
_Com meu amiguinho, mamãe.
De tanta benzeção e rezas, Delfina, aparentemente aconselhada por alguém, pediu que todos ali se retirassem, que seu amiguinho queria descê-la e não faria isso na presença de ninguém. Saíram, e num segundo ouviram o choro da menina pedindo pela mãe. Joaquina correu ao encontro da filha e acabou sujando-a toda de carvão. Abraçou-a, beijou-a e prometeu que nunca mais xingaria em hipótese alguma.
A festa teria ficado para trás, mas Delfina não tinha um arranhão sequer. O casal ficara mais religioso com o medo e desconfiados do que aconteceu.
No dia seguinte à festa de seu aniversário, em que se comportara tão bem, Delfina levantou de manhã quebrando tudo que via à sua frente e dizia:
_Por que não me deixaram participar da minha festa? Onde é que me levaram, que eu não vi nada?
Seus pais, assustados com a atitude da garota, recordaram alguns acontecimentos da festa para que ela lembrasse. E isso a deixava mais irritada.
E continuava:
_Vocês me deram alguma coisa e me prenderam em algum lugar? Por que é que estão mentindo pra mim, heim? _E gritava em voz alta:_É mentira! Mentirosos! Mentira de vocês todos!
Saiu acusando-os de tê-la feito dormir com remédios, enquanto festejavam. Mentiu de ter acordado dentro de um quarto trancado a chave.
As autoridades, ao receberem a denúncia, foram investigar o ocorrido. Como na festa havia muitos convidados, seu João achou que seria muito fácil provar a verdade, e disse ao delegado:
_Olha, essa gente de que já falei para o senhor, estava toda em casa ontem à noite. Pergunte a cada um deles.
E quando a pergunta era feita, todos respondiam com as mesmas palavras.
_Não sei. Não reconheci a moça.
Alguns aumentavam e diziam ainda mais;
_Estava mudada. Muito diferente.
Perguntaram à Chica e a resposta foi:
_Não era a mesma, alguma coisa aconteceu de muito bom, ou de muito ruim.
E assim por diante.
Seu João e dona Joaquina, estavam sofrendo os terrores de um dia apenas de bondade da filha. Preferiam eles morrer a ter que passar por aquilo. Delfina insistia que não participara da festa e os visitantes diziam não ser a mesma que estava lá aquele dia. Em quem as autoridades iriam acreditar, em Delfina, ou nos pais dela? O povo que ali compareceu respondeu assim por estar abismado com o bom comportamento da moça, mas tinham certeza de que era mesmo Delfina que estava lá. Mas as autoridades estavam levando o caso a sério. A amnésia da moça estava levando muita gente a depor.
_O senhor estava na tal festa na casa do senhor João?
_Sim, senhor.
_E quem é que estava na porta?
_Delfina, a filha do proprietário.
_Tem certeza?
_Tenho.
_Por que?
_Porque se parecia muito com ela.
_O senhor achou alguma diferença na moça?
_Nossa senhora, parecia não ser a mesma!
_Por quê?
_Olha, estava mais bonita, muito comportada, falando difícil e...estava completamente mudada. Não era a mesma.
_Mas o senhor acabou de dizer que tem certeza de que era Delfina que estava lá.
_Mas era. _E pensando um pouco dizia:_Olha, amigo,vou ser sincero. A mocinha nos surpreendeu, não dá para acreditar que era a mesma.
Dispensado, saiu deixando mais dúvidas no ar.
Seu Rouxinol, o delegado, achou por bem convocar mais uma testemunha, e resolveu que seria um irmão de Delfina. Este, pensou o delegado, iria pôr em pratos limpos toda aquela maracutaia. Gildo era um ano mais novo que Delfina e estava a par de todas as coisas que aconteciam dentro de sua casa e acima de tudo, ao se deparar com o delegado em sua frente, já sabia o que estava querendo. Gildo estava disposto a falar a verdade sobre a irmã e sabia tudo o que iria lhe perguntar. Ao sentar-se, já foi logo interrogado:
_Como estava a festa na sua casa?
_Muito boa. Maravilhosa!
_A festa era em homenagem a quem?
_Estávamos homenageando Delfina, pelo aniversário dela.
_Se era aniversário de Delfina, por que ela não estava presente?
_...Mas ela estava na festa.
_Ela dançou?
_Não.
_Teve baile?
_Teve, sim senhor.
_E por que ela não dançou?
_Não sei. Talvez não quisesse. _E não aguentando, soltou uma gargalhada e ao mesmo tempo, pedindo desculpas pelo seu comportamento, disse: _Olha delegado, parece brincadeira, eu não sei o que é que fizeram com ela, mas ela estava totalmente mudada. Se não fosse ela minha irmã, juro que não iria acreditar. _E balançando a cabeça negativamente, contestou: _Tem razão, não era a mesma que eu conheço.
O delegado não tinha mais dúvidas que Delfina estava falando a verdade. E ordenou que prendessem os pais.
Roberto gostava ardentemente da moça, mas os acontecimentos sobre o comportamento dela, faziam com que o rapaz ficasse acuado.
_Tem muitas moças por aí, mas a danada é a mais bonita. Que sorte tive eu de gostar da moça mais revoltada daqui. _Pensava.
Enquanto o casal estava engaiolado, dona Deltrudes, a avó, cuidou direitinho dos netos, menos de Delfina, que a toda hora era insolente.
_Já arrumou o seu quarto, Delfina?
_Sim, senhora.
_Então vá lavar as suas roupas.
A inquieta acabava de ouvi-la e desaparecia deixando o serviço por fazer. Não parou em casa, um segundo apenas, a não ser para se alimentar. Os problemas aumentaram e a avó não suportando mais, foi até ao delegado e conseguiu a soltura do casal.
Os doze dias que ficaram presos, foram muito difíceis de serem recuperados, pois o serviço acumulara e o que estava para colher, se perdeu tudo. Joaquina, pela rebeldia da filha, sofreu um bocado, pois grávida novamente de dois meses e passando por agressões físicas e psicológicas, emagreceu, ficou pálida e muito fraquinha, passou a desmaiar, duas a três vezes ao dia. Toda a sua gravidez, passou por problemas estomacais e muitas dores de cabeça. E mesmo assim, Delfina não lhe dava tréguas.
Aprontava tudo.
Um certo dia, Delfina arranjou um namorado, não era daquelas redondezas, mas para os pais da moça, não importava de onde vinha o pretendente. O que lhes importava era que o rapaz fosse o homem certo para ela, e que o amor dele, fosse o bastante para suportá-la.
Depois que João e Joaquina tiveram a certeza de que era mesmo Delfina a mulher dos sonhos dele, resolveram contar-lhe como era a sua filha. E chamando-o em particular desataram:
_Olha Sérgio, a minha filha é uma menina muito direita, mas não tem um pingo de juízo. Gostaríamos muito que você entrasse pra nossa família, mas depois de tudo que vamos lhe contar, não sabemos qual será a sua reação.
E contando em detalhes sobre a vida e o comportamento da garota, o rapaz respondeu:
_Não se preocupe, eu amo a sua filha e tenho certeza de que o meu amor é capaz de mudar totalmente a vida dela.
_Tudo bem. Nós só não queríamos vender gato por lebre. _Falou o pai muito aliviado e bastante sem graça.
O tempo se passava, Delfina mudou, mas não o suficiente. A mudança deu para esfriar a tensão de muitos, principalmente a dos seus pais. A mãe ganhou o bebê sem problemas, e foi bem cuidada pela filha, mas Joaquina, exagerando na alimentação em plena dieta, começou a passar mal. Miroxa, a velha e entendida parteira, resolveu o caso num só tapa. Chamou Delfina em particular e perguntou_lhe:
_Filha, eu já insisti com a sua mãe, pra que ela me conte o que comeu e não consegui fazer com que me contasse. Você será a salvação de sua mãe. Me conte:
_O que é que a sua mãe andou comendo, para que esteja neste estado tão deplorável?
_Não posso contar. Mamãe me fez jurar pra ela que não contaria pra ninguém.
_Mas se você não me contar sua mãe morrerá, pois não saberei aplicar o remédio. E você será a culpada pela morte dela.
Está bem. _Refletiu um pouco, _Olha, mamãe esquentou umas duas conchas de carne de porco com farinha de mandioca e como estivesse se despedindo de tudo e de todos, comeu feito uma esganada. Enquanto comia, ao mesmo tempo tomava café quente por cima.
Miroxa, com um semblante assustador, balançou a cabeça em sinal de agradecimento, se retirou com essa frase:
_Muito obrigada filha, desta ela escapou.
Joaquina escapou, mas ficou acamada por seis meses. Com o vai e vem de curandeiros que iam visitá-la, apareceu um que não era conhecido por ali. Entrou no quarto acompanhado por seu João, examinou a doente caprichosamente, e eixando-a onde estava, pediu ao chefe da casa que o acompanhasse, e o disse:
FICÇÃO
ISBN 85-7372-206-1
MARY PEGO
Delfina foi dormir, ma só se deitou, pois o sono tinha se ido. Nos seus pensamentos, nem ela mesma acreditava no seu comportamento: _como conseguira aquilo afinal? Lembrou-se que, certa vez, sua mãe lhe contara um fato muito curioso que se passara quando era ainda muito uma menina.
Um dia ao serem convidados para uma festa que seguiria com um baile a noite, na casa de amigos de seus pais, a mãe da menina preparou-a muito bem para levá-la consigo. Como era o costume da época, no local, enquanto os casais dançavam numa sala, seus bebês ficavam num quarto contíguo, onde eles poderiam dormir e ser alimentados tranquilamente. O baile estava animado, e pelo que contava sua mãe, um homem muito mal encarado irritou-se ao ver a sua mulher dançando com o seu inimigo, puxou uma arma, picando bala para todos os lados. Foi um Deus nos acuda.
Naquela confusão, com todo o ambiente escuro, as mães foram desesperadas pegar os seus filhos e saíram às pressas, pois as balas passavam cantando por seus ouvidos. Ao chegarem em casa, levaram maior susto, pois não era o filho deixado no berçário da festa. A cor da pele para alguns deu certo, mas a criança era do sexo oposto. Não tinham como destrocar naquela mesma noite, pois o acesso era difícil, e a chuva tempestuosa já caía por várias horas. Ninguém sabia quem eram os verdadeiros pais e as crianças por estranharem o ambiente e as pessoas, com choro lamentoso estava atormentando e tirando a paz dos desesperados pais.
_Ó Deus! Como vou suportar vê-lo gritar, sabendo que o meu filho está perdido nas mãos de sei lá de quem? Se Deus quiser, no que amanhecer, vou ficar livre desse bocudo que não me dá tréguas. Ah, meu Deus como é que está o meu bebê? Será que estão cuidando direitinho dele?
Antes que o dia clareasse, lá estava a bagunça da destroca.
_Hei...Você foi no baile ontem?
_Sim. Por quê?
_Este bebê que está com você é de quem?
_Não sei.
_Posso vê-lo? Talvez seja o nosso.
E cada um ao verificar, se decepcionava por não conhecê-lo.
A angústia e a vontade dos pais era tanta que na busca se desencontravam uns dos outros. E com aquela andança, eram palmas daqui, dali, e só se ouvia.
_A senhora pode reconhecer esta criança?
_o senhor sabe de quem e bebê?
E assim por diante. por casa a mesma pergunta.
_Eu não sei, mas eu acho que se parece muito com a família do Virgulino.
O outro apavorado dizia:
_Mas onde é que mora esse tal Virgulino?
_Mora a uns três quilômetros daqui. O senhor entra neste carril, vai indo, quando ver uma árvore bem grossa, o senhor entra às esquerdas e não demora muito, vai ver a casa do Virgulino.
Chegando lá a resposta era:
_ Não sei. Não conheço.
Depois de um mês de sufoco, foi que se resolveu o problema. Alguns ficaram doentes e passaram por maus pedaços.
Delfina lembrou também que um dia, ainda muito pequena, ao estar muito bem arrumada para uma festa de batizado, na qual seus pais seriam os padrinhos. Para não sujar o vestido branco que usava, sentou-se numa cadeira que estava na sala e sua mãe pediu-a que não saísse dali. Delfina, sentadinha como mandara a mãe, viu aparecer à porta uma figura muito estranha, que nunca vira por ali. Era de estatura muito pequena, mas muito esperto e a chamava insistentemente para brincar. E ela o acompanhou não se sabe por quanto tempo..
A menina só tinha quatro anos de idade e não tinha forças para fazer o que fez. Joaquina, ao voltar das arrumações para buscar a filha, irou-se por não encontrá-la, e começou a procurá-la e a dizer os nomes que sabia. O meio dia de procura não resolveu nada. então arranjaram muitos homens para ajudar na caçada a Delfina. Como a menina era bem pequena, os caçadores só procuravam em lugares onde pudesse cair, mas quando já estava quase anoitecendo, um dos homens assobiou e fez sinal para que não fizessem barulho, pois onde a menina estava era perigoso se assustar e acabar caindo de lá. Ao vê-la, todos ficaram assombrados. Delfina estava a uns bons quilômetros de casa e a árvore onde estava sofrera queimada, não tinha uma folha sequer e não suportava o peso de alguém com o tamanho dela. O lugar era puro carvão. O curioso é que a menina estava em meio a tantos galhos queimados e não havia mancha alguma em seu vestido. Estava num lugar muito difícil de ser retirada, e enquanto faziam planos para tirá-la de lá, ela conversava com alguém e ria largamente, deixando todos curiosos. Ao ver o tamanho problema, chamaram o padre da capela para benzer, pois essa era a única solução. No local não entrava veículos por ser barranceira e as árvores não tinham sido derrubadas. Nessa hora a mãe entrou em desespero e perguntava para a garota:
_Minha filha, com que é que você está conversando?
_Com meu amiguinho, mamãe.
De tanta benzeção e rezas, Delfina, aparentemente aconselhada por alguém, pediu que todos ali se retirassem, que seu amiguinho queria descê-la e não faria isso na presença de ninguém. Saíram, e num segundo ouviram o choro da menina pedindo pela mãe. Joaquina correu ao encontro da filha e acabou sujando-a toda de carvão. Abraçou-a, beijou-a e prometeu que nunca mais xingaria em hipótese alguma.
A festa teria ficado para trás, mas Delfina não tinha um arranhão sequer. O casal ficara mais religioso com o medo e desconfiados do que aconteceu.
No dia seguinte à festa de seu aniversário, em que se comportara tão bem, Delfina levantou de manhã quebrando tudo que via à sua frente e dizia:
_Por que não me deixaram participar da minha festa? Onde é que me levaram, que eu não vi nada?
Seus pais, assustados com a atitude da garota, recordaram alguns acontecimentos da festa para que ela lembrasse. E isso a deixava mais irritada.
E continuava:
_Vocês me deram alguma coisa e me prenderam em algum lugar? Por que é que estão mentindo pra mim, heim? _E gritava em voz alta:_É mentira! Mentirosos! Mentira de vocês todos!
Saiu acusando-os de tê-la feito dormir com remédios, enquanto festejavam. Mentiu de ter acordado dentro de um quarto trancado a chave.
As autoridades, ao receberem a denúncia, foram investigar o ocorrido. Como na festa havia muitos convidados, seu João achou que seria muito fácil provar a verdade, e disse ao delegado:
_Olha, essa gente de que já falei para o senhor, estava toda em casa ontem à noite. Pergunte a cada um deles.
E quando a pergunta era feita, todos respondiam com as mesmas palavras.
_Não sei. Não reconheci a moça.
Alguns aumentavam e diziam ainda mais;
_Estava mudada. Muito diferente.
Perguntaram à Chica e a resposta foi:
_Não era a mesma, alguma coisa aconteceu de muito bom, ou de muito ruim.
E assim por diante.
Seu João e dona Joaquina, estavam sofrendo os terrores de um dia apenas de bondade da filha. Preferiam eles morrer a ter que passar por aquilo. Delfina insistia que não participara da festa e os visitantes diziam não ser a mesma que estava lá aquele dia. Em quem as autoridades iriam acreditar, em Delfina, ou nos pais dela? O povo que ali compareceu respondeu assim por estar abismado com o bom comportamento da moça, mas tinham certeza de que era mesmo Delfina que estava lá. Mas as autoridades estavam levando o caso a sério. A amnésia da moça estava levando muita gente a depor.
_O senhor estava na tal festa na casa do senhor João?
_Sim, senhor.
_E quem é que estava na porta?
_Delfina, a filha do proprietário.
_Tem certeza?
_Tenho.
_Por que?
_Porque se parecia muito com ela.
_O senhor achou alguma diferença na moça?
_Nossa senhora, parecia não ser a mesma!
_Por quê?
_Olha, estava mais bonita, muito comportada, falando difícil e...estava completamente mudada. Não era a mesma.
_Mas o senhor acabou de dizer que tem certeza de que era Delfina que estava lá.
_Mas era. _E pensando um pouco dizia:_Olha, amigo,vou ser sincero. A mocinha nos surpreendeu, não dá para acreditar que era a mesma.
Dispensado, saiu deixando mais dúvidas no ar.
Seu Rouxinol, o delegado, achou por bem convocar mais uma testemunha, e resolveu que seria um irmão de Delfina. Este, pensou o delegado, iria pôr em pratos limpos toda aquela maracutaia. Gildo era um ano mais novo que Delfina e estava a par de todas as coisas que aconteciam dentro de sua casa e acima de tudo, ao se deparar com o delegado em sua frente, já sabia o que estava querendo. Gildo estava disposto a falar a verdade sobre a irmã e sabia tudo o que iria lhe perguntar. Ao sentar-se, já foi logo interrogado:
_Como estava a festa na sua casa?
_Muito boa. Maravilhosa!
_A festa era em homenagem a quem?
_Estávamos homenageando Delfina, pelo aniversário dela.
_Se era aniversário de Delfina, por que ela não estava presente?
_...Mas ela estava na festa.
_Ela dançou?
_Não.
_Teve baile?
_Teve, sim senhor.
_E por que ela não dançou?
_Não sei. Talvez não quisesse. _E não aguentando, soltou uma gargalhada e ao mesmo tempo, pedindo desculpas pelo seu comportamento, disse: _Olha delegado, parece brincadeira, eu não sei o que é que fizeram com ela, mas ela estava totalmente mudada. Se não fosse ela minha irmã, juro que não iria acreditar. _E balançando a cabeça negativamente, contestou: _Tem razão, não era a mesma que eu conheço.
O delegado não tinha mais dúvidas que Delfina estava falando a verdade. E ordenou que prendessem os pais.
Roberto gostava ardentemente da moça, mas os acontecimentos sobre o comportamento dela, faziam com que o rapaz ficasse acuado.
_Tem muitas moças por aí, mas a danada é a mais bonita. Que sorte tive eu de gostar da moça mais revoltada daqui. _Pensava.
Enquanto o casal estava engaiolado, dona Deltrudes, a avó, cuidou direitinho dos netos, menos de Delfina, que a toda hora era insolente.
_Já arrumou o seu quarto, Delfina?
_Sim, senhora.
_Então vá lavar as suas roupas.
A inquieta acabava de ouvi-la e desaparecia deixando o serviço por fazer. Não parou em casa, um segundo apenas, a não ser para se alimentar. Os problemas aumentaram e a avó não suportando mais, foi até ao delegado e conseguiu a soltura do casal.
Os doze dias que ficaram presos, foram muito difíceis de serem recuperados, pois o serviço acumulara e o que estava para colher, se perdeu tudo. Joaquina, pela rebeldia da filha, sofreu um bocado, pois grávida novamente de dois meses e passando por agressões físicas e psicológicas, emagreceu, ficou pálida e muito fraquinha, passou a desmaiar, duas a três vezes ao dia. Toda a sua gravidez, passou por problemas estomacais e muitas dores de cabeça. E mesmo assim, Delfina não lhe dava tréguas.
Aprontava tudo.
Um certo dia, Delfina arranjou um namorado, não era daquelas redondezas, mas para os pais da moça, não importava de onde vinha o pretendente. O que lhes importava era que o rapaz fosse o homem certo para ela, e que o amor dele, fosse o bastante para suportá-la.
Depois que João e Joaquina tiveram a certeza de que era mesmo Delfina a mulher dos sonhos dele, resolveram contar-lhe como era a sua filha. E chamando-o em particular desataram:
_Olha Sérgio, a minha filha é uma menina muito direita, mas não tem um pingo de juízo. Gostaríamos muito que você entrasse pra nossa família, mas depois de tudo que vamos lhe contar, não sabemos qual será a sua reação.
E contando em detalhes sobre a vida e o comportamento da garota, o rapaz respondeu:
_Não se preocupe, eu amo a sua filha e tenho certeza de que o meu amor é capaz de mudar totalmente a vida dela.
_Tudo bem. Nós só não queríamos vender gato por lebre. _Falou o pai muito aliviado e bastante sem graça.
O tempo se passava, Delfina mudou, mas não o suficiente. A mudança deu para esfriar a tensão de muitos, principalmente a dos seus pais. A mãe ganhou o bebê sem problemas, e foi bem cuidada pela filha, mas Joaquina, exagerando na alimentação em plena dieta, começou a passar mal. Miroxa, a velha e entendida parteira, resolveu o caso num só tapa. Chamou Delfina em particular e perguntou_lhe:
_Filha, eu já insisti com a sua mãe, pra que ela me conte o que comeu e não consegui fazer com que me contasse. Você será a salvação de sua mãe. Me conte:
_O que é que a sua mãe andou comendo, para que esteja neste estado tão deplorável?
_Não posso contar. Mamãe me fez jurar pra ela que não contaria pra ninguém.
_Mas se você não me contar sua mãe morrerá, pois não saberei aplicar o remédio. E você será a culpada pela morte dela.
Está bem. _Refletiu um pouco, _Olha, mamãe esquentou umas duas conchas de carne de porco com farinha de mandioca e como estivesse se despedindo de tudo e de todos, comeu feito uma esganada. Enquanto comia, ao mesmo tempo tomava café quente por cima.
Miroxa, com um semblante assustador, balançou a cabeça em sinal de agradecimento, se retirou com essa frase:
_Muito obrigada filha, desta ela escapou.
Joaquina escapou, mas ficou acamada por seis meses. Com o vai e vem de curandeiros que iam visitá-la, apareceu um que não era conhecido por ali. Entrou no quarto acompanhado por seu João, examinou a doente caprichosamente, e eixando-a onde estava, pediu ao chefe da casa que o acompanhasse, e o disse:
FICÇÃO
ISBN 85-7372-206-1
MARY PEGO
quarta-feira, 7 de junho de 2017
JÁ NEM ESTOU ROSNANDO MAIS.
ESTOU MIANDO.
Sempre pensei que eu fosse uma mulher forte.
Qual nada!
Se bater o pé no chão, já sinto que o mundo vai desabar por cima de mim.
Quando me sinto invadida, coloco o rabo entre as pernas, me ponho a urinar feito cão quando está com medo de ser agredido.
Quando penso que é hora de tomar o caminho da moita, já estou lá por muito tempo
Será, que o já passei e o que venho passando, me deixou covarde à ponto de murchar as orelhas,
e ao invés de rosnar, estou miando de puro medo?
No primeiro sinal, nem penso se realmente é perigoso, e já salto longe.
Acho que adoeci, pois nunca fui assim tão frouxa.
Sabe-se lá o que acontece dentro desse ser tão burro e imensamente frágil?
GATO ESCALDADO COM ÁGUA QUENTE, TEM MEDO DE ÁGUA FRIA.
MARY PEGO
Sempre pensei que eu fosse uma mulher forte.
Qual nada!
Se bater o pé no chão, já sinto que o mundo vai desabar por cima de mim.
Quando me sinto invadida, coloco o rabo entre as pernas, me ponho a urinar feito cão quando está com medo de ser agredido.
Quando penso que é hora de tomar o caminho da moita, já estou lá por muito tempo
Será, que o já passei e o que venho passando, me deixou covarde à ponto de murchar as orelhas,
e ao invés de rosnar, estou miando de puro medo?
No primeiro sinal, nem penso se realmente é perigoso, e já salto longe.
Acho que adoeci, pois nunca fui assim tão frouxa.
Sabe-se lá o que acontece dentro desse ser tão burro e imensamente frágil?
GATO ESCALDADO COM ÁGUA QUENTE, TEM MEDO DE ÁGUA FRIA.
MARY PEGO
domingo, 4 de junho de 2017
VOCÊ É A SUA PRÓPRIA VÍTIMA.
VOCÊ TEM QUE SE LIBERTAR DE VOCÊ, PARA QUE NÃO VENHA SER PREJUDICIAL AOS OUTROS.
Conseguiu me ouvir?
Ainda não, né?
Quanta insensibilidade e frieza dentro de um saco de carne.
O meu coração bate feito tambor em mãos fortes, enquanto você dorme.
Aqui dentro, é um tam -tam- tam sem fim e você não me ouve.
Achei que fosse impossível no mundo, ter alguém que não pudesse me ouvir.
Pare e atente um pouco, que com certeza me ouvirá.
Penso que basta querer.
Tente, concentre-se e acredite!
Eu estou te ouvindo e não estou aprovando nada de como esta agindo.
Parece um ser que anda, mas que já nasceu sem vida.
Aquilo que você carrega no peito do lado esquerdo, não é um coração.
É um pedaço de carne que não funciona pra nada, a não ser pra te fazer parar em pé.
De tão insensível que se apresenta.
E ao invés de sangue, corre veneno em suas veias.
Nada do que está falando, contem vida e prosperidade.
Não consegue entender nem a simplicidade da vida.
Bem sei eu, que para estúpidos e desalmados, isso é tarefa dificílima.
A vida por mais simples que pareça ser, é bem complexa para imbecis feito você.
Saiba você, que um ponto que se desfaça devido a sua ignorância, pode estar condenado a perder a vida.
Você palerma, nem sabe o que é isso, né?
Tá solto feito um bicho na terra e então não valoriza nada.
Se acaso estiver me ouvindo,devo estar falando outra língua.
Penso que estou sendo mais clara o possível,
mas sinto que falo num pasto concentrado por quadrúpedes, onde você é um dos jumentos.
VOCÊ É A SUA PRÓPRIA VÍTIMA.
VOCÊ TEM QUE SE LIBERTAR DE VOCÊ, PARA QUE NÃO VENHA SER PREJUDICIAL AOS OUTROS.
MARY PEGO
Conseguiu me ouvir?
Ainda não, né?
Quanta insensibilidade e frieza dentro de um saco de carne.
O meu coração bate feito tambor em mãos fortes, enquanto você dorme.
Aqui dentro, é um tam -tam- tam sem fim e você não me ouve.
Achei que fosse impossível no mundo, ter alguém que não pudesse me ouvir.
Pare e atente um pouco, que com certeza me ouvirá.
Penso que basta querer.
Tente, concentre-se e acredite!
Eu estou te ouvindo e não estou aprovando nada de como esta agindo.
Parece um ser que anda, mas que já nasceu sem vida.
Aquilo que você carrega no peito do lado esquerdo, não é um coração.
É um pedaço de carne que não funciona pra nada, a não ser pra te fazer parar em pé.
De tão insensível que se apresenta.
E ao invés de sangue, corre veneno em suas veias.
Nada do que está falando, contem vida e prosperidade.
Não consegue entender nem a simplicidade da vida.
Bem sei eu, que para estúpidos e desalmados, isso é tarefa dificílima.
A vida por mais simples que pareça ser, é bem complexa para imbecis feito você.
Saiba você, que um ponto que se desfaça devido a sua ignorância, pode estar condenado a perder a vida.
Você palerma, nem sabe o que é isso, né?
Tá solto feito um bicho na terra e então não valoriza nada.
Se acaso estiver me ouvindo,devo estar falando outra língua.
Penso que estou sendo mais clara o possível,
mas sinto que falo num pasto concentrado por quadrúpedes, onde você é um dos jumentos.
VOCÊ É A SUA PRÓPRIA VÍTIMA.
VOCÊ TEM QUE SE LIBERTAR DE VOCÊ, PARA QUE NÃO VENHA SER PREJUDICIAL AOS OUTROS.
MARY PEGO
sexta-feira, 2 de junho de 2017
O PREÇO DO PECADO ( PARTE I )
QUE FIM LEVOU SUELI?
Lá no sertão, pelos cafundós afora, houve uma menina que nunca teve paciência de brincar de casinha e de vestir suas bonequinhas, porque sempre estava armada com atiradeiras e vivia a apedrejar pessoas, animais e também alvos fixos para treinar bem a pontaria. Sempre com o bando de meninos, lá estava ela aprontando ou inventando travessuras.
Ainda quando pequena, com mais ou menos nove anos, ao se arrumar para ir à escola, a menina sempre era pega juntando seus armamentos para agredir os outros, caso precisasse se defender; mas nem sempre se saia bem. Os chicotes eram feitos com fios encapados com panos ralos, a areia ela colocava em pacotinhos para que na hora que seu agressor viesse agredi-la com os olhos arregalados, ela pudesse atirar a areia bem dentro dos olhos do inimigo.
Nunca trazia seu material escolar em ordem e as lições para casa nunca tinha tempo de fazer. Ao chegar na escola sempre era flagrada e castigada por não ter feito as lições ou por não estar prestando atenção às aulas. Ao ser vaiada por crianças de sua sala, ela já escolhia a sua próxima vítima.
O desatencioso Roberto´que por ser sempre o mais lerdo e por nunca tentar reagir contra ninguém, era sempre sua vítima e também da sua turminha.Esse menino era filho de um casal muito ambicioso, que procurava conquistar muitas terras, lutando incansavelmente. Queriam cegamente deixar aos filhos a garantia do sustento.
Manoel, pai de Roberto, um dia bem de manhãzinha, reclamou de dores fortes no peito, banhado de suor, gemendo e rolando no assoalho frio da cozinha, não deu tempo, nem mesmo para um remédio caseiro.
Ao falecer, deixou Roberto com apenas dez anos, e por ele ser simples demais, continuava apanhando sem parar. Saia das garras de um e caia nas unhas de outro. Quando o pai era vivo, a distração de Roberto o irritava e ele acabava perdendo a cabeça e o agredia a pauladas. Roberto só não morreu de tanto apanhar, porque sua mãe o defendia como podia; o menino quando se sentia livre, saia às pressas e se amoitava em esconderijos seguros.
Roberto teve pouca sorte. Prestes a fazer quinze anos, estavam todos na roça carpindo, quando uma irmã menorzinha veio às pressas, quase perdendo o fôlego:
_Mano, vai depressa que mamãe pôs fogo em seu corpo e está ardendo em chamas.
Saíram todos às pressas; como a roça ficava muito longe de casa, ao chegarem não tiveram nada para fazer a não ser chorar em volta das cinzas de sua mãe. A tristeza e a solidão tomaram conta do pobre rapaz e este resolveu abafar a tristeza, secando as lágrimas na esperança de conquistar a mocinha que não era brincadeira, pois já tinha sido por várias vezes sua vítima. Roberto andava arrastando as asas para a jovenzinha, adiantada em suas travessuras diabólicas.
ERA DELFINA.
Uma rapariga formosa, loura, de olhos muito azuis, enfiada em seu vestido com muito babado e rendas, um laço nos cabelos e muita animação e safadeza. Sempre que percebia que estava sendo admirada pela ala masculina, trazia as duas mãos sobre os joelhos, deslizando suavemente de baixo pra cima, levando com elas a parte inferior do vestido, deixando à mostra todo o pecado feminino.
Era ela a mais surpreendente conquistadora daquela região. Delfina procurava chamar a atenção de qualquer forma. Quando aproximava uma figura máscula, ela já fazia as suas perguntas banais, e não demorava em fazer esta:
_Você conhece a minha avó?
E o despreparado respondia:
_Por que você me pergunta? Acho que devo conhecê-la?
_Não. Mas se eu te contar um pouco da minha avó, tenho certeza de que você vai encontrar algumas semelhanças entre eu e ela.
E o curioso, por já se encontrar desencaminhado, dizia;
_Então me conta.
Procuravam um lugar à sombra fresca, e lá Delfina começava a dizer em meio a gestos ingênuos, capricho e sedução.
_A minha avó, mãe de meu pai, se chama Mirtina. Sabe, o meu pai não nos deixa aproximar dela, porque ele diz que ela é louca e que devora crianças, mas essa pilhéria que ele nos conta só serve mesmo para os meus irmãos que são pequenos. Antes eu acreditava nessa história e morria de medo de que ela durante à noite viesse me devorar.Imagine só, eu sendo devorada por uma mulher doida. Meu pai conta que minha avó não era assim antes, mas quando ela tinha quarenta ou cinquenta anos de idade, deu nela uma doença forte chamada menopausa, que deixa qualquer um louco varrido. Eu não sei, não...Fico me perguntando se essa doença é transmissível,pois às vezes sinto os sintomas que a minha avó dizia sentir. Um calor forte me sobe pelo corpo, uma vontade de gritar e arrancar as roupas e rolar numa grama saudável e orvalhada para me refrescar. A minha avó depois disso, nunca mais esteve com os seus compromissos em dia, pois saia pela rua a qualquer hora, pulando feito criança, cantarolando aquelas modas cheias de besteiras, que quando alguém ouve,recolhe as crianças para que não ouçam. _E dando uma pausa, suspirava fundo e continuava:_Eu não acho nada demais nisso. Deve ser legal viver do jeito que ela vive. Pelo que contam e pelo que a minha avó faz, isso não é uma doença, mas sim, um prazer.
Delfina, com o seu comportamento, parecia ser muito mais doente que a sua avó.
Seu João, pai dela era aprendiz de feiticeiro e nas horas vagas, para desafogar e sair um pouco da rotina, às sextas-feiras ia até a casa de um velho feiticeiro, conhecido nas redondezas como preto velho e passava a noite inteirinha trabalhando como ajudante; para que seu trabalho tivesse sucesso, fazia pesquisas sobre a vida alheia para saber o que estava acontecendo para adivinhar boa parte do que as pessoas estavam querendo ouvir. Para cada caso um esquema era cuidadosamente montado, assim o povo não desconfiaria de sua incapacidade e não sairia decepcionado com os dois vigaristas.
Tudo o que diziam a seus pacientes havia uma razão por trás.
Um dia, ao voltar de madrugada para casa, teve ele uma enorme surpresa. Dona Joaquina, sua esposa, havia dado à luz e estava prestes a morrer. Seus três filhos, incluindo o recém-chegado, estava em prantos, sem cuidado algum. Delfina, aconselhada pela mãe, teria saído à procura de uma parteira ainda de madrugada e já eram quase dez horas da manhã e não tinha retornado. Seu pai ao saber dizia:
_Quando não quiser morrer, mande que Delfina busque a morte, pois só assim teremos certeza de que viveremos muito mais.
E saindo rapidamente arranjou dona Miroxa, uma velha ex-escrava que entendia muito bem de partos, e deixando a parteira com a esposa, saiu à procura da rebelde. Quando a encontrou teve uma enorme surpresa. Delfina, em pleno sol das onze horas, retorcia-se no chão quente como minhoca, assando com o calor. Seu João passou mão numa vara bem vigorosa e surpreendeu a moça com uma coça. Agarrado aos seus cabelos, conduziu-a uns bons quilômetros chicoteando-a.. Ao chegar em casa, deparou com uma grande melhora de sua mulher, exigiu todo o serviço pronto para a mocinha que num instante tratou de cumprir. A eficiente parteira, ao terminar o serviço, alegou ser muito tarde para retornar à sua casa, então acharia melhor se dormisse ali aquela noite, pois o relógio marcava quase dez horas da noite e o caminho para casa escondia certos perigos. No outro dia bem cedo, dona Miroxa, aconselhando o chefe da casa, disse:
_Olha, eu estou indo embora pra casa, mas isso não quer dizer que sua mulher pode ficar só, sem a companhia de uma mulher experiente, eu não posso ficar mais e então o senhor ache uma pessoa para dar à Joaquina os cuidados necessários.
_Mas veja só _ balbuciava seu João. _Eu, com uma moça em casa, vou sair por aí a preocupar os outros, tirando mulheres de suas casas pra fazer um trabalho que Delfina, como mulher, poderia fazer.
_A sua filha não é mulher o suficiente para prestar o serviço que estou deixando. E portanto o senhor rate de arranjar uma mulher que já pariu pelo menos uma vez na vida para poder assumir esse compromisso com maturidade.
Deltrudes foi muito bem recebida por todos, principalmente por Delfina, que adorava ouvir as histórias dos tempos passados contadas pela avó. Depois do serviço pronto Deltrudes reunia os netos sentados feito rodinha pelo chão e começava a contar sobre os escravos que conviviam com sua família. Na sua lembrança estavam muito vivas as imagens do passado.
E iniciava:
_Há muitos anos atrás, no tempo em que eu era ainda muito criança, meus pais tinham muitos escravos. Eles viviam numa senzala pouco distante da nossa casa, o suficiente para nos manter longe. Todas as noites, como eram muito rigorosas as ordens de meu pai, os escravos, depois de liberados cada um dos seus afazeres, se recolhiam e mantinham silêncio total.
Um dia da semana, escolhido pelo senhor, por ser, quem sabe, um dia onde ninguém se preocuparia com falações e risos, era cedido para que os escravos, seus filhos e mulheres se reunissem e contassem casos juntos em plena luz da lua.
As mulheres escravas que mais se identificavam com a cozinha eram as que menos sofriam, as mais desajeitadas tratavam de animais, faziam sabão e pegavam no cabo da enxada. O serviço de qualquer jeito teria que sair, então muitas escravas passavam o dia com seus filhos dependurados no pescoço pra não dar incômodo a ninguém e pra que ninguém pudesse a vir castigá-los.
Por muito pouco eram chicoteados, se mostrassem pouco rendimento eram humilhados de todas as formas. Viviam constantemente aterrorizados. Viam o pavor brotar em cada ação não desejada pelos feitores. Os dentes de seus filhos, por exemplo, ao nascerem, logo eram extraídos para evitar o consumo de carnes ou alimentos considerados desnecessários na alimentação escrava. Seus filhos eram vendidos como se vendia animais e sequer era aceita a interferência dos pais. Alguns ao nascerem com problemas físicos ou mentais, eram exterminados sem compaixão. As meninas-moças, eram obrigadas a ceder o corpo para a satisfação sexual dos senhores e não tinham liberdade para pedia a custódia do filho que viesse a ter, como todo ser humano tem direito. As crianças que ficassem na fazenda eram trocadas por moedas ou animais, antes que tomassem consciência dos costumes que eram obrigadas a aceitar.
Certa vez, de tanto passarem necessidades, alguns deles, inclusive mulheres, resolveram que ao entardecer, iriam ao depósito de um fazendeiro a mais ou menos umas duas fazendas dali para roubar alimentos. A fome levou-os ao total descontrole, encorajaram-se e saíram. Foram uma, duas vezes, e no final já iam todas as noites. O fazendeiro ao descobrir não se alarmou e armou aos famintos uma grande cilada. Pediu a seus empregados que providenciassem o carimbo que usavam nas marcações de animais e que nele continha as suas iniciais.
Os esfomeados escravos desciam ao armazém usando uma corda e cada vez que um descia, era pego e carimbado no lado esquerdo das nádegas. Quem não quis descer por já estar desconfiado de tamanha traição era pressionado pelos pistoleiros do fazendeiro que em todo tempo estavam amoitados e escondidos perto dos desatentos. Depois de todos terem se entregado, o fazendeiro malvado, arranjou-lhes tudo o que havia ali pra se comer, encheu um saco pra cada um e mandou-os de volta pra casa. Mesmo sabendo do perigo que estava à porta, e sofrendo pelas queimaduras do carimbo, eles estavam satisfeitos e diziam uns para os outros:
_O sinhô de lá parece ser mais bonzinho. O que é que você diz disso?
_Se ele fosse tão bonzinho como a maioria de vocês estão falando, ele não teria nos carimbado. Vocês acham que eles dão ponto sem nó? Eu me deito todas as noites e me levanto de manhã com medo de que o dia chegue pra nós. Vocês podem ter certeza de que um dia o banzé, um dia aparece.
O tempo passava e parecia que tudo havia ficado pra trás. Um dia, logo de manhãzinha, o fazendeiro mal-intencionado chegou com os seus capangas e cada um deles armados até os dentes, trazendo consigo além de cordas para amarrá-lo, uns chicotes muito resistentes . Ao chegarem já foram logo dizendo o que estava ocorrendo.
_Sabe, senhor, temos vários escravos rebeldes aqui na sua fazenda, faz alguns meses que fugiram de lá da minha fazenda e...
_Como é que o senhor ousa me dizer uma barbaridade dessas? Os meus escravos são todos nascidos e criados aqui na minha fazenda e portanto não darei a ninguém permissão alguma pra entrarem na minha propriedade.
_Mas, senhor, já faz mais ou menos us seis meses que, ao amanhecer, não via a maioria dos negros em casa.
_Mas se já faz seis meses por que o senhor não fez a busca rapidamente?
_Fiz, sim senhor, mas só os localizei agora.
E o fazendeiro inconformado balançava a cabeça negativamente, sem parar e muito irônico pra mostrar para o insistente que ele estava totalmente errado, pediu pra que seus capangas reunissem os escravos para serem verificados. Enquanto o serviço estava sendo feito, em conversa o fazendeiro esperto disse:
_Olha, o senhor não se preocupe porque os meus escravos, todos eles são marcados com um carimbo, e nele tem as minhas iniciais. _E como o silêncio era total, ele perguntou:_ Os seus são carimbados?
_Não. E eu estou muito feliz por isso, pois só assim provarei para o senhor que os meus escravos não são os seus procurados.
Não demorou duas horas para o capanga Juriti vir dizer que estavam à disposição, que ao verificar, a senzala foi-se quase toda embora.
Revoltado sem ter como se vingar, pegou a sobra e deu-lhes uma grande surra e uma escrava por estar grávida de sete meses, não aguentando a tortura, morreu após três dias.
Sem serviço braçal e com o ódio correndo em seu sangue, depois de alguns dias de derrota, o louco fazendeiro juntou aos seus capangas e em secreto verificou muito bem onde estavam emanados no trabalho e liquidou a todos, inclusive o fazendeiro ladrão.
Mal Deltrudes acabou de contar a sua história, Delfina, como que num susto, deu um salto e desapareceu com o vento que empoeirava toda a visão.. Corria contra a ventania, gritando e soltando gargalhadas assustadoras, subindo e descendo de obstáculos que lhe proibiam a passagem. A idade da moça não lhe proibia as diabruras. Ao passar daquele modo por pessoas da rua, algumas paravam admiradas, outras simplesmente riam com ironia, mas as crianças e adolescentes na maioria das vezes apedrejavam-na e Delfina respondia, atirando pedras, falando palavrões e descobrindo o corpo na presença de qualquer um.
Certo dia, o pai de Delfina, conversando com parentes e amigos, combinou que, num domingo ensolarado, seria muito bom que se reunissem para contar histórias e tocar sanfona como era do costume do povo dali. No dia os amigos chegaram cada um com as suas mulheres, e Miguel era o sanfoneiro do dia..
Tocando as modinhas da época, Delfina, como não perdia tempo, dançava e rebolava com a intenção de atrair os homens mais novos, mas como todos os que estavam ali estavam eram casados, Delfina só conseguiu arranjar um grande fuzuê, que acabou deixando muitos prejudicados. Seus pais, com o intuito de diminuir o falatório surgido com a festa, achou por bem organizar uma festa que comemoraria o aniversário de Delfina. Daria certo se esbanjassem nos convites e exagerassem na comilança.
Depois de ser muito bem orientada e até mesmo castigada pelos pais, Delfina disse a eles que iriam se surpreender com o seu comportamento. Um dia antes da festa, as arrumações começaram já muito cedo, a matança de porcos, galinhas e até um novilho.
Na noite da festa Delfina ficou pronta e atenta para a recepção dos convidados. Recebia todos sem constrangimentos e dizia:
_Quer beliscar ou tomar alguma coisa? Vá até a cozinha. Se preferir carne, o salão é logo às direitas.
A perigosa maluca estava espantando com seus caprichos e assombroso comportamento. E por ai, os cochichos começaram:
_O que deu nela?
_Não sei. _Dizia Chica.
_Quem é aquela que está recebendo as pessoas na porta? Não estou reconhecendo.
E outros espalhados pela multidão, indagavam:
_Quem afinal expulsou o mal de Delfina?
Na hora do baile, Delfina preferiu ficar sentada, só assistindo. Ora com os braços cruzados, ora com as mãos sobre os joelhos. Não aceitou nenhum convite para dançar e olhava pouco par os lados.
Seus pais, quando terminou a festa, quando todos já tinham ido embora, felicitaram-na, agradeceram e elogiaram seu comportamento, mas a moça, com um olhar arrogante, não disse uma palavra sequer.
Chica, antes de ir ajudar nas arrumações, fez uma aposta com dona Marcolina, sua mãe, que naquela festa iria sair pelo menos um ferido, isso se não fosse morto. E disse:
_Olha, mamãe, se não sair ninguém ferido, eu me caso com o velho Praxedes.
Praxedes era um velho horroroso que andava lhe arrastando as asas. e por ser sujo, doente e mulherengo nem as velhas viúvas o queriam. Chica tinha absoluta certeza de que não iria perder a aposta, mas ao presenciar tanta santidade na moça, irritou-se ao se lembrar do trato que fez, sabendo que o velho nojento teria sobrado pra ela. Dona Marcolina, que não foi à festa, ao saber do comportamento da rapariga, ficou boquiaberta e disse:
_Quem aposta em Delfina, só tem a perder. Quando é que se viu algo assim naquela moça? Cruz-credo!
E se benzendo, entrou para o seu quarto imaginando como seria Delfina quieta sem incomodar.
Comportada a moça deveria ficar ainda mais bonita. Pensava ela.
PARTE DO TEXTO EXTRAÍDO DO ROMANCE DE MINHA AUTORIA.
FICÇÃO
ISBN 85-7372-206-1
MARY PEGO
Lá no sertão, pelos cafundós afora, houve uma menina que nunca teve paciência de brincar de casinha e de vestir suas bonequinhas, porque sempre estava armada com atiradeiras e vivia a apedrejar pessoas, animais e também alvos fixos para treinar bem a pontaria. Sempre com o bando de meninos, lá estava ela aprontando ou inventando travessuras.
Ainda quando pequena, com mais ou menos nove anos, ao se arrumar para ir à escola, a menina sempre era pega juntando seus armamentos para agredir os outros, caso precisasse se defender; mas nem sempre se saia bem. Os chicotes eram feitos com fios encapados com panos ralos, a areia ela colocava em pacotinhos para que na hora que seu agressor viesse agredi-la com os olhos arregalados, ela pudesse atirar a areia bem dentro dos olhos do inimigo.
Nunca trazia seu material escolar em ordem e as lições para casa nunca tinha tempo de fazer. Ao chegar na escola sempre era flagrada e castigada por não ter feito as lições ou por não estar prestando atenção às aulas. Ao ser vaiada por crianças de sua sala, ela já escolhia a sua próxima vítima.
O desatencioso Roberto´que por ser sempre o mais lerdo e por nunca tentar reagir contra ninguém, era sempre sua vítima e também da sua turminha.Esse menino era filho de um casal muito ambicioso, que procurava conquistar muitas terras, lutando incansavelmente. Queriam cegamente deixar aos filhos a garantia do sustento.
Manoel, pai de Roberto, um dia bem de manhãzinha, reclamou de dores fortes no peito, banhado de suor, gemendo e rolando no assoalho frio da cozinha, não deu tempo, nem mesmo para um remédio caseiro.
Ao falecer, deixou Roberto com apenas dez anos, e por ele ser simples demais, continuava apanhando sem parar. Saia das garras de um e caia nas unhas de outro. Quando o pai era vivo, a distração de Roberto o irritava e ele acabava perdendo a cabeça e o agredia a pauladas. Roberto só não morreu de tanto apanhar, porque sua mãe o defendia como podia; o menino quando se sentia livre, saia às pressas e se amoitava em esconderijos seguros.
Roberto teve pouca sorte. Prestes a fazer quinze anos, estavam todos na roça carpindo, quando uma irmã menorzinha veio às pressas, quase perdendo o fôlego:
_Mano, vai depressa que mamãe pôs fogo em seu corpo e está ardendo em chamas.
Saíram todos às pressas; como a roça ficava muito longe de casa, ao chegarem não tiveram nada para fazer a não ser chorar em volta das cinzas de sua mãe. A tristeza e a solidão tomaram conta do pobre rapaz e este resolveu abafar a tristeza, secando as lágrimas na esperança de conquistar a mocinha que não era brincadeira, pois já tinha sido por várias vezes sua vítima. Roberto andava arrastando as asas para a jovenzinha, adiantada em suas travessuras diabólicas.
ERA DELFINA.
Uma rapariga formosa, loura, de olhos muito azuis, enfiada em seu vestido com muito babado e rendas, um laço nos cabelos e muita animação e safadeza. Sempre que percebia que estava sendo admirada pela ala masculina, trazia as duas mãos sobre os joelhos, deslizando suavemente de baixo pra cima, levando com elas a parte inferior do vestido, deixando à mostra todo o pecado feminino.
Era ela a mais surpreendente conquistadora daquela região. Delfina procurava chamar a atenção de qualquer forma. Quando aproximava uma figura máscula, ela já fazia as suas perguntas banais, e não demorava em fazer esta:
_Você conhece a minha avó?
E o despreparado respondia:
_Por que você me pergunta? Acho que devo conhecê-la?
_Não. Mas se eu te contar um pouco da minha avó, tenho certeza de que você vai encontrar algumas semelhanças entre eu e ela.
E o curioso, por já se encontrar desencaminhado, dizia;
_Então me conta.
Procuravam um lugar à sombra fresca, e lá Delfina começava a dizer em meio a gestos ingênuos, capricho e sedução.
_A minha avó, mãe de meu pai, se chama Mirtina. Sabe, o meu pai não nos deixa aproximar dela, porque ele diz que ela é louca e que devora crianças, mas essa pilhéria que ele nos conta só serve mesmo para os meus irmãos que são pequenos. Antes eu acreditava nessa história e morria de medo de que ela durante à noite viesse me devorar.Imagine só, eu sendo devorada por uma mulher doida. Meu pai conta que minha avó não era assim antes, mas quando ela tinha quarenta ou cinquenta anos de idade, deu nela uma doença forte chamada menopausa, que deixa qualquer um louco varrido. Eu não sei, não...Fico me perguntando se essa doença é transmissível,pois às vezes sinto os sintomas que a minha avó dizia sentir. Um calor forte me sobe pelo corpo, uma vontade de gritar e arrancar as roupas e rolar numa grama saudável e orvalhada para me refrescar. A minha avó depois disso, nunca mais esteve com os seus compromissos em dia, pois saia pela rua a qualquer hora, pulando feito criança, cantarolando aquelas modas cheias de besteiras, que quando alguém ouve,recolhe as crianças para que não ouçam. _E dando uma pausa, suspirava fundo e continuava:_Eu não acho nada demais nisso. Deve ser legal viver do jeito que ela vive. Pelo que contam e pelo que a minha avó faz, isso não é uma doença, mas sim, um prazer.
Delfina, com o seu comportamento, parecia ser muito mais doente que a sua avó.
Seu João, pai dela era aprendiz de feiticeiro e nas horas vagas, para desafogar e sair um pouco da rotina, às sextas-feiras ia até a casa de um velho feiticeiro, conhecido nas redondezas como preto velho e passava a noite inteirinha trabalhando como ajudante; para que seu trabalho tivesse sucesso, fazia pesquisas sobre a vida alheia para saber o que estava acontecendo para adivinhar boa parte do que as pessoas estavam querendo ouvir. Para cada caso um esquema era cuidadosamente montado, assim o povo não desconfiaria de sua incapacidade e não sairia decepcionado com os dois vigaristas.
Tudo o que diziam a seus pacientes havia uma razão por trás.
Um dia, ao voltar de madrugada para casa, teve ele uma enorme surpresa. Dona Joaquina, sua esposa, havia dado à luz e estava prestes a morrer. Seus três filhos, incluindo o recém-chegado, estava em prantos, sem cuidado algum. Delfina, aconselhada pela mãe, teria saído à procura de uma parteira ainda de madrugada e já eram quase dez horas da manhã e não tinha retornado. Seu pai ao saber dizia:
_Quando não quiser morrer, mande que Delfina busque a morte, pois só assim teremos certeza de que viveremos muito mais.
E saindo rapidamente arranjou dona Miroxa, uma velha ex-escrava que entendia muito bem de partos, e deixando a parteira com a esposa, saiu à procura da rebelde. Quando a encontrou teve uma enorme surpresa. Delfina, em pleno sol das onze horas, retorcia-se no chão quente como minhoca, assando com o calor. Seu João passou mão numa vara bem vigorosa e surpreendeu a moça com uma coça. Agarrado aos seus cabelos, conduziu-a uns bons quilômetros chicoteando-a.. Ao chegar em casa, deparou com uma grande melhora de sua mulher, exigiu todo o serviço pronto para a mocinha que num instante tratou de cumprir. A eficiente parteira, ao terminar o serviço, alegou ser muito tarde para retornar à sua casa, então acharia melhor se dormisse ali aquela noite, pois o relógio marcava quase dez horas da noite e o caminho para casa escondia certos perigos. No outro dia bem cedo, dona Miroxa, aconselhando o chefe da casa, disse:
_Olha, eu estou indo embora pra casa, mas isso não quer dizer que sua mulher pode ficar só, sem a companhia de uma mulher experiente, eu não posso ficar mais e então o senhor ache uma pessoa para dar à Joaquina os cuidados necessários.
_Mas veja só _ balbuciava seu João. _Eu, com uma moça em casa, vou sair por aí a preocupar os outros, tirando mulheres de suas casas pra fazer um trabalho que Delfina, como mulher, poderia fazer.
_A sua filha não é mulher o suficiente para prestar o serviço que estou deixando. E portanto o senhor rate de arranjar uma mulher que já pariu pelo menos uma vez na vida para poder assumir esse compromisso com maturidade.
Deltrudes foi muito bem recebida por todos, principalmente por Delfina, que adorava ouvir as histórias dos tempos passados contadas pela avó. Depois do serviço pronto Deltrudes reunia os netos sentados feito rodinha pelo chão e começava a contar sobre os escravos que conviviam com sua família. Na sua lembrança estavam muito vivas as imagens do passado.
E iniciava:
_Há muitos anos atrás, no tempo em que eu era ainda muito criança, meus pais tinham muitos escravos. Eles viviam numa senzala pouco distante da nossa casa, o suficiente para nos manter longe. Todas as noites, como eram muito rigorosas as ordens de meu pai, os escravos, depois de liberados cada um dos seus afazeres, se recolhiam e mantinham silêncio total.
Um dia da semana, escolhido pelo senhor, por ser, quem sabe, um dia onde ninguém se preocuparia com falações e risos, era cedido para que os escravos, seus filhos e mulheres se reunissem e contassem casos juntos em plena luz da lua.
As mulheres escravas que mais se identificavam com a cozinha eram as que menos sofriam, as mais desajeitadas tratavam de animais, faziam sabão e pegavam no cabo da enxada. O serviço de qualquer jeito teria que sair, então muitas escravas passavam o dia com seus filhos dependurados no pescoço pra não dar incômodo a ninguém e pra que ninguém pudesse a vir castigá-los.
Por muito pouco eram chicoteados, se mostrassem pouco rendimento eram humilhados de todas as formas. Viviam constantemente aterrorizados. Viam o pavor brotar em cada ação não desejada pelos feitores. Os dentes de seus filhos, por exemplo, ao nascerem, logo eram extraídos para evitar o consumo de carnes ou alimentos considerados desnecessários na alimentação escrava. Seus filhos eram vendidos como se vendia animais e sequer era aceita a interferência dos pais. Alguns ao nascerem com problemas físicos ou mentais, eram exterminados sem compaixão. As meninas-moças, eram obrigadas a ceder o corpo para a satisfação sexual dos senhores e não tinham liberdade para pedia a custódia do filho que viesse a ter, como todo ser humano tem direito. As crianças que ficassem na fazenda eram trocadas por moedas ou animais, antes que tomassem consciência dos costumes que eram obrigadas a aceitar.
Certa vez, de tanto passarem necessidades, alguns deles, inclusive mulheres, resolveram que ao entardecer, iriam ao depósito de um fazendeiro a mais ou menos umas duas fazendas dali para roubar alimentos. A fome levou-os ao total descontrole, encorajaram-se e saíram. Foram uma, duas vezes, e no final já iam todas as noites. O fazendeiro ao descobrir não se alarmou e armou aos famintos uma grande cilada. Pediu a seus empregados que providenciassem o carimbo que usavam nas marcações de animais e que nele continha as suas iniciais.
Os esfomeados escravos desciam ao armazém usando uma corda e cada vez que um descia, era pego e carimbado no lado esquerdo das nádegas. Quem não quis descer por já estar desconfiado de tamanha traição era pressionado pelos pistoleiros do fazendeiro que em todo tempo estavam amoitados e escondidos perto dos desatentos. Depois de todos terem se entregado, o fazendeiro malvado, arranjou-lhes tudo o que havia ali pra se comer, encheu um saco pra cada um e mandou-os de volta pra casa. Mesmo sabendo do perigo que estava à porta, e sofrendo pelas queimaduras do carimbo, eles estavam satisfeitos e diziam uns para os outros:
_O sinhô de lá parece ser mais bonzinho. O que é que você diz disso?
_Se ele fosse tão bonzinho como a maioria de vocês estão falando, ele não teria nos carimbado. Vocês acham que eles dão ponto sem nó? Eu me deito todas as noites e me levanto de manhã com medo de que o dia chegue pra nós. Vocês podem ter certeza de que um dia o banzé, um dia aparece.
O tempo passava e parecia que tudo havia ficado pra trás. Um dia, logo de manhãzinha, o fazendeiro mal-intencionado chegou com os seus capangas e cada um deles armados até os dentes, trazendo consigo além de cordas para amarrá-lo, uns chicotes muito resistentes . Ao chegarem já foram logo dizendo o que estava ocorrendo.
_Sabe, senhor, temos vários escravos rebeldes aqui na sua fazenda, faz alguns meses que fugiram de lá da minha fazenda e...
_Como é que o senhor ousa me dizer uma barbaridade dessas? Os meus escravos são todos nascidos e criados aqui na minha fazenda e portanto não darei a ninguém permissão alguma pra entrarem na minha propriedade.
_Mas, senhor, já faz mais ou menos us seis meses que, ao amanhecer, não via a maioria dos negros em casa.
_Mas se já faz seis meses por que o senhor não fez a busca rapidamente?
_Fiz, sim senhor, mas só os localizei agora.
E o fazendeiro inconformado balançava a cabeça negativamente, sem parar e muito irônico pra mostrar para o insistente que ele estava totalmente errado, pediu pra que seus capangas reunissem os escravos para serem verificados. Enquanto o serviço estava sendo feito, em conversa o fazendeiro esperto disse:
_Olha, o senhor não se preocupe porque os meus escravos, todos eles são marcados com um carimbo, e nele tem as minhas iniciais. _E como o silêncio era total, ele perguntou:_ Os seus são carimbados?
_Não. E eu estou muito feliz por isso, pois só assim provarei para o senhor que os meus escravos não são os seus procurados.
Não demorou duas horas para o capanga Juriti vir dizer que estavam à disposição, que ao verificar, a senzala foi-se quase toda embora.
Revoltado sem ter como se vingar, pegou a sobra e deu-lhes uma grande surra e uma escrava por estar grávida de sete meses, não aguentando a tortura, morreu após três dias.
Sem serviço braçal e com o ódio correndo em seu sangue, depois de alguns dias de derrota, o louco fazendeiro juntou aos seus capangas e em secreto verificou muito bem onde estavam emanados no trabalho e liquidou a todos, inclusive o fazendeiro ladrão.
Mal Deltrudes acabou de contar a sua história, Delfina, como que num susto, deu um salto e desapareceu com o vento que empoeirava toda a visão.. Corria contra a ventania, gritando e soltando gargalhadas assustadoras, subindo e descendo de obstáculos que lhe proibiam a passagem. A idade da moça não lhe proibia as diabruras. Ao passar daquele modo por pessoas da rua, algumas paravam admiradas, outras simplesmente riam com ironia, mas as crianças e adolescentes na maioria das vezes apedrejavam-na e Delfina respondia, atirando pedras, falando palavrões e descobrindo o corpo na presença de qualquer um.
Certo dia, o pai de Delfina, conversando com parentes e amigos, combinou que, num domingo ensolarado, seria muito bom que se reunissem para contar histórias e tocar sanfona como era do costume do povo dali. No dia os amigos chegaram cada um com as suas mulheres, e Miguel era o sanfoneiro do dia..
Tocando as modinhas da época, Delfina, como não perdia tempo, dançava e rebolava com a intenção de atrair os homens mais novos, mas como todos os que estavam ali estavam eram casados, Delfina só conseguiu arranjar um grande fuzuê, que acabou deixando muitos prejudicados. Seus pais, com o intuito de diminuir o falatório surgido com a festa, achou por bem organizar uma festa que comemoraria o aniversário de Delfina. Daria certo se esbanjassem nos convites e exagerassem na comilança.
Depois de ser muito bem orientada e até mesmo castigada pelos pais, Delfina disse a eles que iriam se surpreender com o seu comportamento. Um dia antes da festa, as arrumações começaram já muito cedo, a matança de porcos, galinhas e até um novilho.
Na noite da festa Delfina ficou pronta e atenta para a recepção dos convidados. Recebia todos sem constrangimentos e dizia:
_Quer beliscar ou tomar alguma coisa? Vá até a cozinha. Se preferir carne, o salão é logo às direitas.
A perigosa maluca estava espantando com seus caprichos e assombroso comportamento. E por ai, os cochichos começaram:
_O que deu nela?
_Não sei. _Dizia Chica.
_Quem é aquela que está recebendo as pessoas na porta? Não estou reconhecendo.
E outros espalhados pela multidão, indagavam:
_Quem afinal expulsou o mal de Delfina?
Na hora do baile, Delfina preferiu ficar sentada, só assistindo. Ora com os braços cruzados, ora com as mãos sobre os joelhos. Não aceitou nenhum convite para dançar e olhava pouco par os lados.
Seus pais, quando terminou a festa, quando todos já tinham ido embora, felicitaram-na, agradeceram e elogiaram seu comportamento, mas a moça, com um olhar arrogante, não disse uma palavra sequer.
Chica, antes de ir ajudar nas arrumações, fez uma aposta com dona Marcolina, sua mãe, que naquela festa iria sair pelo menos um ferido, isso se não fosse morto. E disse:
_Olha, mamãe, se não sair ninguém ferido, eu me caso com o velho Praxedes.
Praxedes era um velho horroroso que andava lhe arrastando as asas. e por ser sujo, doente e mulherengo nem as velhas viúvas o queriam. Chica tinha absoluta certeza de que não iria perder a aposta, mas ao presenciar tanta santidade na moça, irritou-se ao se lembrar do trato que fez, sabendo que o velho nojento teria sobrado pra ela. Dona Marcolina, que não foi à festa, ao saber do comportamento da rapariga, ficou boquiaberta e disse:
_Quem aposta em Delfina, só tem a perder. Quando é que se viu algo assim naquela moça? Cruz-credo!
E se benzendo, entrou para o seu quarto imaginando como seria Delfina quieta sem incomodar.
Comportada a moça deveria ficar ainda mais bonita. Pensava ela.
PARTE DO TEXTO EXTRAÍDO DO ROMANCE DE MINHA AUTORIA.
FICÇÃO
ISBN 85-7372-206-1
MARY PEGO
quinta-feira, 1 de junho de 2017
LOUQUINHA E PERDENDO OS CHINELOS,
POR VOCÊ.
Amor, hoje acordei mais cedo, só pra poder chegar na lua, antes que venha o amanhecer.
Quero dizer:
_Me levantei tarde, amor, mas não consegui chegar nela.
No que a avistei no meio da noite, estava ela robusta e viçosa a sorrir.
Vivo no mundo da lua, e por vezes penso que fui ao seu encontro.
Quero e tenho a necessidade em ser a sua companhia.
Essa minha dor de corno, não sai da minha pele nem com reza braba.
Será porque sou assim tão descornada?
Hoje, mais uma vez amanheci chorando.
Mas do contrário de sempre, amanheci chorando de rir, amor?
Por vezes, já passei pelo medo de que eu possa um dia, vir a morrer sorrindo.
Mas é pura bobagens de gente que insiste em querer a ficar lúcida.
No meu caso, jamais faria a besteira de morrer de repente.
Morreria eu, por quem, amor, se nunca pertenci a ninguém?
Fui solta no mundo por ser um projeto rígido, detestável e difícil de manusear, e então vivo só.
Então;
_Se amar é sofrer, amor, que essa minha dor seja letal para que eu venha morrer aos poucos.
LOUQUINHA E PERDENDO OS CHINELOS, POR VOCÊ.
MARY PEGO
Amor, hoje acordei mais cedo, só pra poder chegar na lua, antes que venha o amanhecer.
Quero dizer:
_Me levantei tarde, amor, mas não consegui chegar nela.
No que a avistei no meio da noite, estava ela robusta e viçosa a sorrir.
Vivo no mundo da lua, e por vezes penso que fui ao seu encontro.
Quero e tenho a necessidade em ser a sua companhia.
Essa minha dor de corno, não sai da minha pele nem com reza braba.
Será porque sou assim tão descornada?
Hoje, mais uma vez amanheci chorando.
Mas do contrário de sempre, amanheci chorando de rir, amor?
Por vezes, já passei pelo medo de que eu possa um dia, vir a morrer sorrindo.
Mas é pura bobagens de gente que insiste em querer a ficar lúcida.
No meu caso, jamais faria a besteira de morrer de repente.
Morreria eu, por quem, amor, se nunca pertenci a ninguém?
Fui solta no mundo por ser um projeto rígido, detestável e difícil de manusear, e então vivo só.
Então;
_Se amar é sofrer, amor, que essa minha dor seja letal para que eu venha morrer aos poucos.
LOUQUINHA E PERDENDO OS CHINELOS, POR VOCÊ.
MARY PEGO
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