MESMO SEM TÊ-LA, AINDA CONSEGUI BRINCAR COM ELA.
Certa vez, depois de passar vários dias frente uma vitrine de uma loja da cidadezinha onde morávamos, vi que tinha uma boneca grande exposta para que as pessoas da rua a visse.
Fiquei extasiada ao vê-la, e dali pra frente, todos os dias eu passava bom tempo sentada de costas para a rua a observar. Ali, pedia a Deus em silêncio para que ele arranjasse meios para que os meus pais conseguissem me dar uma de presente no natal. Nunca em minha vida, tinha ganhado nada. Nem caro, nem barato. Quantos sonhos tive com ela. Faltavam poucos meses para o natal e eu fazia planos alegres com a minha primeira boneca. Sempre acreditei em milagres. Um dia sentada de costas pra rua, orando a Deus para que ela viesse para os meus braços, senti alguém tocar no meu ombro a dizer;
_O que faz aqui? Não está vendo que já está tarde? Olhe bem o sol se pondo? Por que está chorando?
_Nada. Respondi secando o rosto com as mãos.
Me levantei e o acompanhei.
Era um vizinho nosso que passava por ali e viu um pouco da minha angústia. No caminho de volta pra casa, ele me disse que ia fazer o possível e o impossível para ver se o homem, dono da boneca, venderia-a. Na conversa dele, o dono dela só estava exibindo-a, por ser muito bonita. Achava ele, que não estava a venda. Acreditei e passei a pedir a Deus que o homem cedesse na hora da proposta que iriam lhe fazer. Chegando em casa, papai também estava chegando do seu serviço e o vizinho logo já lhe deixou a par da situação.
_Encontrei a sua filha chorando na frente da vitrine de uma loja chorando de vontade de ter uma boneca que está lá. ...Que tal nós dois juntar um dinheiro e comprar uma pra ela?
Papai decepcionado, disse-lhe;
_O meu desejo é dar tudo do que ha de melhor para os meus filhos, mas não vou iludi-la prometendo algo que não vou cumprir.
Se dirigindo a mim, disse; _O papai não pode comprar nada a não ser alimentos para vocês.
Concordei. Eu sabia muito bem das nossas necessidades, mas nas minhas escapadas, ia pra frente da vitrine e ali ficava. Só que depois disso não mais chorei. Me conformei em vê-la presa por trás do vidro. Quantos casos lhe contei. Ri muito com ela. Lhe levava até flores que colhia no jardim dos nossos amáveis vizinhos. Quantas promessas lhe fiz.
Aquela boneca ficou guardada em minha vida por muitos anos.
O homem da loja dali pra frente a colocou bem pertinho, quase ao toque das minhas mãos. Mesmo sem ter uma boneca, brinquei com ela por muitos dias.
No dia de natal, antes do almoço, fugi e fui lhe ver mais uma vez e lhe disse;
_FELIZ NATAL!
Demorei tanto que quando olhei para trás, vi mamãe a me gritar;
_Pra casa! Pra casa! Pra casa!
Eu na frente e ela falando;
_Boneca feia! Horrorosa! Você só gosta de porcaria, não é?
Sei que falava assim para que eu gostasse menos de uma coisa que nunca iria ter. Falava assim, para que eu sofresse menos.
MARY PEGO
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