quinta-feira, 7 de julho de 2016

A PRIMEIRA VEZ DESSA JÉGUINHA,

                        FOI INESQUECÍVEL!

Quando criança, como os meus pais não tinham condições para comprar o necessário para nós, e como uma das lojas da cidadezinha que vendia secos e molhados, todo o começo de ano dispensava a mercadoria que não dava pra ser negociada, colocava-as, todas na calçada pelo lado de fora para que a população carente pudesse aproveitar alguma coisa para o uso.
Os calçados que não tinham saído durante o ano anterior eram expostos dessa maneira..
Assim foi que consegui o meu primeiro sapato.
Ali tinha vários sapatos do mesmo modelo, com a numeração, tamanhos e cores diferentes, e todos eles eram para o pé esquerdo. Todos não, quase todos.
O comerciante era caprichoso, exibia-os numa fileira que se via ao longe.
Mamãe, antes de nos levar  para que fizéssemos a escolha dos calçados, dava-nos uma lição de moral, dizendo nos;
_Sejam educados, não quero vê-los esparramando tudo, feito porcos num coxo. Vão trazer um par pra cada um, e só. Lembrem-se, os outros também precisam, aquilo que está lá, não é somente para vocês, tá bom? Se me fizerem passar vergonha, nunca mais os levo em lugar algum.
Lá, depois de uma escolha minuciosa, a maioria voltava com os sapatos olhando para o mesmo lado. E um sapato grande demais num pé, e no outro, um bem apertado.
Aquilo era a minha alegria.
Teve um ano que acertei em cheio. Peguei um par perfeito.
Era um sapato de plástico branco, cheio de furinhos e com um laço bem evidente em cima. Fiquei para explodir de tanta alegria. Não via a hora de voltar para a escola, para exibi-lo.
No primeiro dia, depois de me arrumar toda, botei os sapatos com mamãe me elogiando e sai.
A escola era demasiadamente longe e a rua por não ser pavimentada, a poeira, o calor absurdo fizeram com que, os meus pés e sapatos, afundassem chão a dentro,  formando assim, uma lama. Liso por estar molhado, não mais paravam nos meus pés. Irritada com tudo aquilo, passei a chorar. Me abaixei, fingi que estava arrumando algo, enquanto os meus irmãos e amigos se distanciavam, tirei-os, e os escondi numa moita de capim e continuei com a caminhada. Na volta pra casa, fiz o mesmo. Corri na frente, tomando distancia, peguei-os de volta, coloquei-os nos pés, como se nada tivesse acontecido.
Éramos tão acostumados a ficar descalços que ninguém percebeu nada.
Quando cheguei em casa, mamãe já me esperava com palmas de alegria dizendo;
_ Já é uma mocinha! Foi e voltou calçada e bonitinha!
Sorri um tanto sem graça pra ela.
_O que foi? Não gostou de ir calçada pra escola?
_Gostei, mas os meus pés doeram.
_Já, já você se acostuma, minha filha!
Saí dali e fui lavá-los. Toda e qualquer poeirinha, já estava os lavando. Imagine no estado em que ele se encontrava na volta da escola?
À noite com a esperança de desistir dos sapatos, disse;
_Mamãe, o meu sapato é tão bonito que vou guardá-lo para que quando eu ficar mocinha, vou ter um, para sair passear.
_O quê? Você está a me dizer que não vai mais crescer daqui pra diante? Daqui a alguns meses, ele já não vai te servir mais garota!
_Que raiva passei quando ouvi dizer que aquele belo sapato, não mais iria me servir, dentro de poucos meses.
Maquinei:
_Como vou ter um sapato bonito pra sempre?
Foi nesta hora que a jéguinha  teve a brilhante ideia.
Pensei;
_Então, daqui pra diante, vou dormir de sapatos, assim eles  impedirão o crescimento dos meus pés.
Se estão presos dentro do sapato, é certo que não vão mais crescer.
Assim fiz, não sei por quanto tempo, só sei que ao me acordar todas as  manhãs, tinha eu, o maior trabalho para encontrá-los. Eles saiam dos meus pés, enrolavam pelos cobertores de forma que era trabalhoso demais arrancá-los de lá.
Achei que só assim, eu poderia ter sapatos que me servissem  pra sempre!
Não me lembro qual foi o fim dos meus sapatos.

































                                MARY PEGO

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