quarta-feira, 23 de novembro de 2016

EU NÃO SABIA, MAS JÁ ERA NOITE DE NATAL!

                                TRISTE, NÉ?

No meio da noite, minha irmã mais velha me despertou com uma ideia genial, da qual colocaríamos em prática no dia seguinte.
_Você viu o homenzinho todo de vermelho, pendurado do lado de fora da porta, na casa da dona Galeana?
_Capaz! Não vi, não. É bonito?
_Muito bonito. Está todo de vermelho. Parece que tá sorrindo para todos que passam pela rua.
_Isso quer dizer que o natal está chegando, né?
_Sim. Nunca tivemos um, para comemorar...
_Vamos fazer um para nós?
_Vamos!
_Não conta pra ninguém, mas amanhã, se você me ajudar, vamos confeccionar um pra gente. Quem sabe, esse ano, ele não esquece de trazer os presentes que já estamos cansados de pedir.
Coitadinho só não nos trouxe, porque não sabia do nosso desejo até agora.
Sempre o esperamos cantando musiquinhas de natal bem alto, e até agora nada dele vir.
Acho que nem nos ouviu. Deve de estar surdo e enxergando pouco por estar com a idade avançada.
Conhecíamos a cidade como ninguém e fomos bater nas portas da costureiras à procura de retalhos com cores em vermelho e branco. Levamos o que ganhamos e constatamos que eram retalhos que não daria para a confecção do bom velhinho.
Eram retalhos muito pequenos, e então fomos atrás do nosso sonho.
Nós duas queríamos fazer algo que agradasse a nossa família.
Mamãe era o meu alvo.
Pensei;
_Coitada da minha mamãe! Nunca teve um homenzinho de pano para pendurar na porta, como a maioria das mulheres tem.
Depois de três dias de trabalho, conseguimos só uma cortina vermelha toda velha e furada pelo tempo de uso. E decepcionada passeei a chorar.
_Meu Deus, o meu papai noel vai nascer velho!
_...Mas ele não pode ser novo. Sempre que vejo é um velho barbudo e barrigudo. (Minha irmã)
_Estou falando da roupa que vai ficar feia por ser feita de pano velho.
O fato é que nos escondemos e confeccionamos o bom velhinho.
Ele ficou feio por ter braços e pernas muito curtas com cabeça e corpo, exageradamente grande.
Aquilo para mim, foi a coisa mais importante de minha vida.
Achei que iam chover presentes aquele ano.
Secretamente, sem alardes, à noite, penduramos-o, num pé de piteira que havia bem na frente da nossa casa.
Quase não dormimos aquela noite de tanta emoção. Agradecemos a Deus pela nossa coragem e inteligência rara.
Como duas desesperadas, procuramos meios para construí-lo, como um porco arrisca o seu próprio focinho na lama onde foi instalado arame farpado.
Damos a cara a tapa, mas o papai noel estava bem ali pertinho da gente.
Acordamos de manhã com gritarias e algazarras.
_Sai demônio! Aqui não é o seu lugar.
_Obra de macumbaria estava pendurado em frente a sua casa, (Diziam para os meus pais)
__Quem fez isso? (Perguntavam)
Coitado! O nosso novo e velho amigo foi agredido a fogo e ferro.
Estraçalharam-o de forma que as palhas que usamos como enchimento, ficassem espalhadas por todos os lados, fazendo com que o ambiente ficasse ainda mais triste.
E ainda como se não bastasse, o acusaram de ser uma obra de bruxaria.
Mamãe quando soube que a arte era nossa e que a intenção era para o bem, prometeu que procuraria fazer melhor no próximo ano.
Eu não sabia, mas já era noite de natal.
Passamos aquele natal de olhos inchados de tanto chorar.
Foi o natal mais triste da minha vida.
Achamos que aquele episódio fez com que ficássemos mais uma vez sem nada.
ABSOLUTAMENTE NADA.




































                           MARY PEGO

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