QUE SEMPRE FORAM PRETOS.
Quando pequena, muito pequena,
junto com os meus irmãos, que contavam seis,
e mais alguns filhos de vizinhos, praticamente morávamos,
embaixo do assoalho da casa onde vivíamos.
Nós, crianças, não estávamos autorizadas pelos nossos pais,
a ir até a casa de cada um deles, então; eles vinham até a nossa.
Ali passávamos o dia cantando, orando e por vezes, até brigando entre nós.
Logo de manhã, o mais esperto, munia de uma vasilha com açúcar, outra com sal, água e uma toalha. Lá ficávamos, até que nossas mães nos chamavam para almoçar. Quando acontecia, logo que acabava de fazer a refeição, voltávamos para o mesmo local de antes.
A mãe de um dos amigos, emprestou um cobertor velho e rasgado para que ajudasse na brincadeira, e eu não sei como me veio a mente, que;
- Eu tinha que ficar com os olhos azuis, assim como eram, os da maioria dos convidados que ali brincávamos conosco.
Tudo que coloquei nos olhos não funcionou, então; pedi que soltassem puns, embaixo do cobertor enquanto ficava com a cabeça encoberta até passar a tragédia do fedor. E nada.
Acabava o sacrifício, saía em disparada para me olhar no espelho, pra me certificar se aconteceu a mudança da cor.
Um senhor me garantiu que funcionava. Mentiu, porque até hoje, tenho olhos pretos.
O tempo todo, enquanto brincávamos e cantávamos, eram distribuídos pitadas de açúcar para as crianças, e sal para a cabritinha que se misturava entre nós.
Aquele tempo, não havia TV e nem essa tecnologia de hoje, então; sempre confeccionei os meus próprios brinquedos, desde bonecas a carrinhos de rolimã.
´Pensei: -Só faço tudo isso, porque quero ser a diferente da família.
Vão se surpreender ao me ver exibindo, os meus lindos olhos azuis.
Vivia perguntando para minha mamãe;
_Como estão os meus olhos? Qual é a cor que eles tem?
Ela respondia até perder a paciência;
_Normal. Ou, pretos.
Quanta decepção e dor passei, até saber e entender que, seriam eles pretos por toda a minha vida.
MARY PEGO
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