segunda-feira, 6 de junho de 2016

GOSTARAM?

                                       HEHEHEH!

Era umas cinco horas da tarde, quando deparamos com um objeto reluzindo em meio ao sol escaldante, nos atordoando com o som da buzina e o barulho sonoro dos enfeites das rodas de uma estonteante bicicleta.
Ela vinha ao nosso encontro, empurrada por um senhor de bigodes grandes e cara bem carrancuda, demonstrando não ser nem um pouquinho gentil.
Faltando ainda bons metros pra chegada, veio falando alto e áspero com a gente.
_Onde anda o teu pai pivetes? Chama-o para mim.
_O papai não está em casa. Só volta bem de tarde.
_Então sujeira, chame a tua mãe.
_Mamãe volta junto com papai.
Respondíamos deslizando as mãos na bicicleta a babar.
_...Gostaram?
_Sim, é muito linda!
_Linda eu bem sei que é, mas não é para o bico de sujinhos como vocês!
_É muito cara, não é?
Perguntou um de nós.
_Sim, muiiiiito! E falou, nos.
Vou dar uma volta na cidade e mais tarde venho falar com o pai de vocês.
Naquela tarde, nos esquecemos de tudo, até de conversarmos entre nós.
Ficamos de olho na rua esperando o regresso da bicicleta.
Pouco mais tarde, chegou mamãe já nos chamando cada um pelo nome de batismo,
e quando isso acontecia, a coisa não ficava boa.
Fulano, porque não cuidou do fogo para que o feijão cozinhasse? Sicrano, porque não fez isso?
Beltrano, porque não fez aquilo?
E assim começava o desconserto.
Juro que devido as cobranças excessivas vindo de mamãe, fizemos o que ela exigiu numa rapidez enorme. E quando terminamos o homem da bicicleta já estava conversando com papai. 
No fundo do terreno, tinha construídos vários banheiros, todos ligados uns aos outros, e ele queria que papai arranjasse um deles, para que ele pudesse guardar a sua possante enquanto faria uma viajem de ônibus para bem distante dali. Na volta, passaria para pegá-la.
Conversaram muito e entraram num acordo.
O homem deixaria a bicicleta trancada e levaria a chave para que nada pudesse vir a dar errado.
Dizia com sua máxima arrogância.
_A minha bicicleta é nova e não pode cair nas mãos de moleques bagunceiros.
Papai retrucou dizendo lhe, que não estava gostando da maneira que estava nos tratando.
  _É modo de falar. É só uma brincadeira, suavizou.
Guardou-a, tomou posse da chave, despediu-se e se foi.
Bem feito! Foi falar mal dos santinhos, se deu muito mal.
No outro dia, depois de tentar todas as chaves que sabíamos de suas existências, sem sucesso, resolvemos fazer uma maratona na cidade inteira e assim conseguimos uma sacola de chaves para tentar abrir a porta do banheiro.
Agora diz que eu nunca aprontei?
Aqueles banheiros bem acabados e trancados a chaves trezentos e sessenta e cinco dias no ano, com o povo usando um mictório nauseabundo que o fedor adentrava queimando as narinas mesmo estando distante, daria a nós a maior alegria que jamais pensamos algum dia ter. Nunca ouvi alguém reclamar do porque não os deixavam usá-los, mas a nós, um deles, deu sim, imensa satisfação.  Mas aquele das merdas fedorentas, nos livrou de tamanha surra. Sim, porque se papai e mamãe descobrissem tamanha falta de disciplina em nós, arrancaria a nossa pele e deixávamos tomando banho de salmoura de pelo menos trinta dias.  Depois que abríssemos a porta onde se encontrava a bicicleta, daríamos as chaves que emprestamos sem que os donos delas soubessem, o destino das merdas. E não é que uma, dentre tantas, nos deu a alegria de brincar por quase uma hora? Uma pena, mas com pouco tempo acabamos por enrolar o nosso desejo de consumo, num poste.
Depois da tragédia, (literalmente falando) que deixou o capetinha mais velho todo em farrapos, nos  juntamos e levamos-a de volta, de onde não deveria de ter saído e fechamos a porta devidamente como estava.
Aquela noite, estranhamente quase que toda a cidadezinha dormiu com as portas encostadas.
Depois de tudo pronto, destinamos um moleque, com um punhado de chave para a devolução, dizendo;
_Não somos ladrões. Só pegamos emprestado. O nosso maior erro foi não ter feito o pedido para que nos as emprestassem.
Eu até hoje não sei explicar o porque da sobra. Sobraram tantas que nos juntamos em volta do mictório, fizemos uma oração pedindo perdão pelo ato e como um ritual fosse, jogamos-as, de olhos fechados. Cada um jogava a sua parte, e enquanto um lançava, os outros;
_Vai chave! Desapareça em nome de Jesus cristo! Não volte nunca mais para infernizar as nossas vidas e prometemos nunca mais mexer com as coisas dos outros. Amém!
Mas pela cara do capetinha maior, que foi rachada no poste, não nos lembramos de orar, não.
O homem depois de um mês fora, chegou alegre, conversou um tanto com papai, e descontraído abriu a porta do banheiro e de súbito caiu por terra. Só ouvimos um grito rouco saindo de sua boca que não mais se fechava.
Pensa que nos acusou? Nem por um só segundo. Mas percebi que enquanto gritava, olhava para o teto do banheiro que era de lage cruzada com ferros.
Enquanto tomava a água com açúcar, cedida por mamãe, para que se acalmasse, papai saiu ligeiramente e em silêncio tomou posse de todas as chaves e testou uma a uma sem falar nada.
Pensei; _Heheheheh!, a chave da tragédia não está ai. Que isso papai? O senhor está desconfiando dos seus negrinhos?
Só sei que depois de tudo, o coitado do homem sumiu na escuridão com a bicicleta nas costas e nunca mais o vi.
Papai não tinha como nos acusar, então acho que o homem só foi castigado por ficar nos acusando antecipadamente.
Não tive nem tempo para aprender a andar de bicicleta, e papai só soube da verdade, muitos anos depois.




































                            MARY PEGO

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